Full Metal Jousting

A TV a cabo me deu uma grata surpresa esses dias, enquanto olhava a grade de programação. É um programa que pelas categorias nas que se encaixa eu nunca assistiria; trata-se de um reality show, e ainda de luta. Mas este programa é de um esporte bem antigo que foi atualizado para nossos tempos, e procura vingar como esporte pra valer: as justas medievais.


Enquanto o Brasil está passando por uma febre de ringue graças aos lutadores nacionais fazendo sucesso na UFC, eu não embarquei nessa onda pelo simples fato de não curtir nenhuma luta desse tipo. Apenas curto simpatia para artes marciais, onde existe uma evidente disciplina e um respeito enorme pelo adversário. Nesse mesmo critério, os cavaleiros medievais eram regidos pelas normas da cavalaria; tanto é assim que se dois cavaleiros se encontrassem em combate e um deles se rendesse, o outro não o matava, como também não o levava prisioneiro nem nada. Simplesmente virava as costas e continuava na batalha, onde o outro era obrigado pelo código de honra a se retirar em justa derrota. Ambos tinham consciência que não havia vitoria em tirar a vida de um rival. Claro, isto não se aplicava ao soldado comum, que entrava na guerra para fazer dinheiro à custa dos espólios.

Minha primeira oportunidade de ver uma justa ao vivo foi no meu aniversário deste ano, no Medieval Times. Claro que esta justa foi encenada ou cenográfica, mas todas as justas que vimos no cinema até hoje foram encenadas. Qual a chance de ver uma justa real, pra valer?

Era um esporte de valentes. O único esporte onde não há evasão; o adversário sempre vai bater em você. Dois cavaleiros, com todo o peso da armadura, avançando em linha reta um contra o outro em grandes cavalos de guerra. É como uma batida de carro, onde o alvo é o ombro esquerdo. Tão violenta, que mesmo com todo o peso da armadura como apoio ainda assim é capaz de derrubar a pessoa do cavalo. Apenas por colocar em números, o peso do cavalo, mais o cavaleiro, mais a armadura fica na casa entre 1100 e 1200 quilos. O peso de um carro pequeno. Mais números: os cavalos correm até uns 35 km/h, o que em sentidos opostos fazem que a batida dos cavaleiros ocorra a pelo menos 60 km/h. Ouch.

Por interesse de um grupo de pessoas cada vez maior, há um movimento para trazer as justas aos tempos de hoje e fazer disso um evento patrocinado, como poderia ser o futebol, o baseball, o basquete ou a Nascar. Desse interesse surgiu a Full-Contact Jousting, disciplina esportiva que busca ressurgir estas provas intensas e emocionantes. Busca-se manter a essência, mas modernizando as armaduras tanto de homens como dos animais. Em primeiro lugar fica a segurança dos cavalos, que nada tem a ver com os loucos que estão cavalgando neles, mas sem deixar de lado a segurança dos participantes e do público.

O History Channel introduziu na sua grade um novo programa, traduzido no Brasil para "Combate Medieval", e em inglês como "Full Metal Jousting". É um concurso de justas com 16 participantes divididos em dois times, onde participam em um torneio de eliminatórias pelo prémio de cem mil dólares. Entre os participantes, encontramos veteranos de guerra, lutadores de justas encenadas (como os do Medieval Times), stunts, cowboys e treinadores de cavalos. O prêmio vai além do dinheiro; é a oportunidade de se tornar "justador" profissional, e participar dos campeonatos oficiais. O anfitrião do programa é Shane Adams, campeão mundial do torneio de justas , e ex artista do Medieval Times de Toronto.

O History Channel fez um infográfico sensacional explicando o esporte, as regras, as armaduras e a mecânica da contagem de pontos. As imagens que vou colocar aqui são as mesmas disponíveis no site deles, mas recomendo muito que visitem o History para ver os vídeos e o infográfico.


Lindo... observem no detalhe que as armaduras são uma reedição moderna das antigas, uma versão estilizada. O mesmo observamos nos cavalos, onde a sela é bem mais simples e leve, com protetor peitoral acoplado e até uma espécie de óculos de acrílico para proteger os olhos do cavalo de qualquer estilhaço, ou mesmo de um impacto casual. Estes modernos cavaleiros não vestem gibão de couro, cota de malha, nada disso; a proteção por baixo da armadura é bem semelhante à usada pelos dublês de filme, como se fosse um conjunto de neoprene com protetores reforçados na coluna, lombar, ombros, joelhos, cotovelos e demais pontos frágeis. Por cima disso, a armadura, de aço e parafusada nos pontos removíveis. O visor inclui uma malha de aço nas aberturas, protegendo de qualquer estilhaço que possa voar nessa direção. Mesmo com toda essa modernidade, o conjunto pesa uns 35 quilos, é bem quente e atrapalha muito no movimento e no equilíbrio.

I am Iron.. Knight. Steel, actually.
 A imagem ao lado também é do infográfico, e mostra a cara da armadura moderna, produzida para o programa. Esta armadura é de aço, e vemos sobre o ombro esquerdo o pequeno escudo acoplado; este é o alvo que o adversário deve acertar para pontuar. A prova consiste em oito corridas (ou passadas), onde acertar este alvo vale um ponto, quebrar a lança (acertando o alvo) vale 5 pontos, e derrubar o adversário vale 10 pontos. Acertar a cabeça desconta pontos, e acertar o cavalo do adversário desqualifica imediatamente. Tem outras regras mais detalhadas, como acertar o protetor da lança se estiver na trajetória do escudo ou acertar ponta de lança com ponta de lança, mas isso já é para os mais avançados. O que interessa e fazer uma justa.. o mais justa possível.
Não se enganem pensando que os cavaleiros medievais lutavam só pela honra; eles lutavam pela fama, pelo dinheiro, por terras, e para se exibir como mercenários para quem puder pagar pelos seus talentos. Era um esporte tão popular como os grandes esportes de hoje, que enchem estádios. Os antigos cavaleiros faziam circuitos de justas, e ficavam famosos nas vozes dos heraldos, o equivalente aos reporters esportivos de hoje. Tanto é assim, que surgiam até rivalidades entre cavaleiros famosos, e tinham confrontos épicos equivalentes aos maiores clássicos entre times de futebol de hoje. 

Voltando ao programa, tenho que admitir que é um pouco devagar. Embora tem momentos animados, as justas em si duram pouco tempo, e o clima de reality show não condiz muito com a disciplina, nem com a ideia de popularizar o esporte. Espero que nos próximos episódios peguem a mão do programa, e a edição os ajude um pouco mais a promover este esporte. Brutal, é verdade, mas muito mais elegante que um octógono sujo de sangue.

Pegando carona no History Channel, aproveito para comentar outro programa que começou agora, chamado "Vida Medieval" em português e "Get Medieval" no inglês original. Neste programa acompanhamos o dia a dia da vida medieval, desde a construção de castelos até detalhes da alimentação. É um passeio pela história, que vale a pena conferir. 

Quem for assistir algum destes programas, comente! 

Até o próximo post!

 




Um comentário:

Pedrita disse...

não conhecia. tive contato com um cd que tem obras de dois compositores argentinos. beijos, pedrita