A Demanda do Santo Graal

Há um par de semanas ganhei um livro da Marion. Não esperava, mas como ela disse, viu no shopping, sabia que não fazia parte da minha coleção de livros arturianos e decidiu comprar como presente. Apenas ontem tive tempo de folhear o livro, ler a introdução e parte do primeiro capítulo; minha primeira impressão antes de ler o livro era de que se tratava de mais uma compilação das histórias arturianas, mas ao revisar ontem descobri que na verdade se trata de um trabalho acadêmico de tradução.


Lembram quando falei do ciclo vulgato? Ocorre que dentre os documentos em francês, há partes faltantes da história, especificamente no segmento da busca do graal (também conhecido como ciclo post-vulgato). Nossa sorte é que existem documentos em outros idiomas, aparentemente traduções de um original francês que não existe mais. Estes textos foram encontrados em espanhol e português.

A versão em espanhol está separada em dois fólios, um de 1515 (Toledo) e o outro de 1535 (Sevilla). Este último foi reimpresso por Adolfo Bonilla y San Martin em 1907 sob o título de La demanda del Sancto Grial, dentro de uma compilação chamada Libros de caballerias, parte I, Ciclo artúrico. Já a versão em português aparenta ser mais próxima ao texto francês do que a versão espanhola, ao observarmos detalhes sobre continuidade da história, personagens, etc. Este manuscrito português está preservado na Biblioteca Nacional de Viena, sob o código MS2594, e é de onde parte o trabalho do Heitor Megale, autor do livro que ganhei.

O Heitor é professor de Língua Portuguesa na USP aqui em São Paulo, e a proposta dele no livro é trazer uma versão atualizada, revisitada do "Demanda do Santo Graal" original. Como parte deste esforço, ele procurou outras fontes para complementar as partes faltantes do texto original, para trazer ao leitor uma versão mais completa da história.

Esta não é a primeira tradução deste texto no Brasil; até onde consegui pesquisar, a primeira tradução (ou modernização) do texto para os dias atuais foi feita por Augusto Magne no Rio de Janeiro em 1944, com algumas reedições posteriores. Houve também traduções em Portugal, mas desconheço se chegaram até aqui.

Na página do Projeto Vercial consta um extrato do texto no original, e para quem quiser saber mais do Heitor Megale, achei esta página vinculada à USP com sua bibliografia. Sobre o trabalho de tradução, encontrei também um documento de autoria dele comparando o texto do manuscrito à tradução impressa.

Apenas pela questão lúdica da coisa, vou colocar o texto como consta no Projeto Vercial (equivalente ao manuscrito), e como consta no livro que ganhei. Tirem suas conclusões! O manuscrito vem primeiro em itálico, e o texto atual logo abaixo em negrito e letras menores.

Véspera de Pinticoste foi grande gente assüada em Camaalot, assi que podera homem i veer mui gram gente, muitos cavaleiros e muitas donas mui bem guisadas. El-rei, que era ende mui ledo, honrou-os muito e feze-os mui bem servir; e toda rem que entendeo per que aquela corte seeria mais viçosa e mais leda, todo o fez fazer.
Véspera de Pentecostes, houve muita gente reunida em Camalote, de tal modo que se pudera ver muita gente, muitos cavaleiros e muitas mulheres de muito bom parecer. O rei, que estava por isso muito alegre, honrou-os muito e fez servi-los muito bem e toda coisa que entendeu que tornaria aquela corte mais satisfeita e mais alegre, tudo mandou fazer.

Aquel dia que vos eu digo, direitamente quando queriam poer as mesas – esto era ora de noa – aveeo que üa donzela chegou i, mui fremosa e mui bem vestida. E entrou no paaço a pee, como mandadeira. Ela começou a catar de üa parte e da outra, pelo paaço; e perguntavam-na que demandava.
Aquele dia que vos digo, exatamente quando queriam pôr as mesas - isto era hora da noa - aconteceu que uma donzela chegou muito formosa e muito bem vestida; e entrou no paço a pé, como mensageira. Ela começou a procurar de uma parte e de outra pelo paço; e perguntaram-lhe o que buscava.

– Eu demando – disse ela – por Dom Lançarot do Lago. É aqui?
- Busco - disse ela - dom Lancelote do Lago. Está aqui?

– Si, donzela – disse üu cavaleiro. Veede-lo: stá aaquela freesta, falando com Dom Gualvam.
- Sim, donzela - disse um cavaleiro. - Vede-o: está naquela janela falando com dom Galvão.

Ela foi logo pera el e salvô-o. Ele, tanto que a vio, recebeo-a mui bem e abraçou-a, ca aquela era üa das donzelas que moravam na Insoa da Lediça, que a filha Amida del-rei Peles amava mais que donzela da sua companha i.
Ela foi logo para ele e saudou-o. Ele, assim que a viu, recebeu-a muito bem e abraçou-a, poruqe aquela era uma das donzemas que moravam na ilha de Lediça a quem a filha Amida do rei Peles amava mais que a donzela da sua companhia.

– Ai, donzela! – disse Lançalot –que ventura vos adusse aqui, que bem sei que sem razom nom veestes vós?
- Ai, donzela - disse Lancelote -, que ventura vos trouxe aqui? Que bem sei que sem razão não viestes.

– Senhor, verdade é; mais rogo-vos, se vos aprouguer, que vaades comigo aaquela foresta de Camaalot; e sabede que manhãa, ora de comer, seeredes aqui.
- Senhor, verdade é; mas rogo-vos, se vos aprouver, que vades comigo àquela floresta de Camalote; e sabei que amanhã, à hora de comer, estareis aqui.

Tem uma coisa que sempre me incomodou, tanto dos textos em espanhol quanto dos textos em português: a tradução de nomes. Acho totalmente desnecessário, mas de maneira recorrente, Arthur virou Artur e Arturo, sem falar no resto, como Gawain virando Galvão. Tem regras de tradução de nomes, explicando as equivalências entre partes de nomes, como por exemplo quando um nome vai terminar em "ão". Eu particularmente prefiro quando mantém os nomes no original do texto, seja qual for o idioma. Senão, qual a graça de Culwch visitar Ynis Widrin? A tradução de nomes mata toda a força do nome; sorte do Harry Potter que não deixou de ser Harry. Poderia ter virado Horácio Vasilhame.

Gostaram? Ano que vem tem mais. Até a semana que vem!

O Natal está logo ali

Último post antes do Natal. Fiquei pensando, e lembrando. Houve muitos acontecimentos na lenda arturiana que ocorreram no Natal, assim como em outras festas religiosas. No período medieval, as coroações de reis geralmente ocorriam no Natal; provavelmente para contar com a benção da igreja. Eu particularmente teria preferido fazer esse tipo de evento no verão, para que os viajantes que fossem participar da cerimônia tivessem menos problemas, e claro, para que possam passar o Natal com suas respectivas famílias. Mas como não sou rei nem nada não posso dar nenhum apito nesse sentido, né?

Um dos fatos mais marcantes dentro do universo arturiano que ocorreu no Natal foi a famosa cena da espada na pedra; Arthur puxou a espada um dia qualquer, mas não foi reconhecido como legítimo herdeiro do trono, portanto Merlin convenceu o Arcebispo de Cantebury a refazer a prova da espada no Natal, o que dava tempo para que todos os reis, barões, duques, condes e cavaleiros de renome soubessem da prova e pudessem participar. É claro que o que Merlin pretendia era ter testemunhas incontestáveis; ninguém fora o jovem Arthur foi capaz de puxar a espada da pedra, por mais que tentassem, por maior que fosse seu título de nobreza. Só depois de demonstrar isso tudo que a verdadeira origem do Arthur foi revelada, e seu título de príncipe herdeiro reconhecido. Eu já falei desta história em detalhe em Maio deste ano, lembram?

Nós, cidadãos do Novo Mundo, não temos tradições próprias de Natal. Tudo o que sabemos fazer foi "importado" das Europas, onde o Natal é no inverno, e os costumes bem diferentes. Não vou usar meu espaço aqui para contar cada uma das tradições herdadas, mas deixo em vocês a pontada de curiosidade; encontrei uma página que conta muitos detalhes sobre como era o Natal no período medieval, cheio de curiosidades simpáticas. Uma das que achei mais engraçadas é sobre como surgiram os corais de Natal; esse costume de ficar perambulando de porta em porta ocorreu porque eles não se encaixavam no tom estritamente religioso da celebração natalina, portanto foram expulsos da igreja. Daí foram para outra igreja, e também foram colocados pra fora; e assim foram de porta em porta, cantando do lado de fora. E virou tradição :-)

Pessoal, celebrem muito estas festas; lembrem sempre da origem dela, e façam planos para o ano novo que está vindo; só não esqueçam que o ano não acabou ainda, temos um bocado de coisas que podemos fazer até o ano acabar! Vivam cada dia intensamente! E um Muito Feliz Natal para Todos!!!!

Até a semana que vem!

Play Time!

Fazendo as buscas que faço normalmente para estudar sobre os assuntos do blog, dei de cara com a zman games, uma fábrica de jogos de RPG. Para quem nunca ouviu falar, RPG é o acrônimo de Role-Playing Game, ou jogo de rol, onde os participantes interpretam um papel. Eu particularmente acho um pouco de frescura categorizar certos jogos de RPG, já que tem muitos jogos que não caem nessa categoria mas também interpretamos um papel, seja de herói, piloto de avião, corredor ou até banqueiro. A zman games produz vários jogos interessantes, além dos RPGs, como jogos de tabuleiro e de cartas. E o que me chamou a atenção foi um jogo de cartas, mais precisamente o Camelot Legends: um jogo de baralho inspirado na lenda arturiana!

Pano de fundo não incluso no pacote.

Eu disse pra mim mesmo, "nossa, que coisa bacana, pena que não vai ter como comprar... afinal vende lá fora". De puro cabeçudo, fui ver como funcionavam as encomendas internacionais, como era o método para pagar, etc, etc. Bom, juntando coragem, paguei os 25 dólares do jogo, e os 20 dólares pelo frete, e fiquei sentado esperando. Para meu espanto, menos de uma semana depois da compra, a encomenda estava na minha porta. Foi melhor e mais rápido do que muitíssimas coisas que comprei aqui mesmo dentro do estado!

Primeira impressão: O jogo é LINDO. A arte das cartas foi feita por artistas bem conhecidos e talentosos, e o capricho aparece em cada peça. É quase uma pena que as cartas tenham que ter um tamanho padrão, porque os desenhos acabam ficando pequenos, rodeados de informação pertinente ao jogo.

O escudo no canto superior esquerdo mostra as alianças entre cavaleiros.

Segunda impressão: O material do baralho é EXCELENTE. "Isso aqui vai durar pra caramba", pensei.

Terceira impressão: Só depois de jogar!

Assim, ontem, sábado, jogamos duas rodadas, a Marion e eu. O jogo permite 2 a 4 jogadores, e tem um mecanismo de jogo muito bacana, tão bem bolado que pouco importa e jogam 2, 3 ou 4 jogadores, o jogo deve durar mais ou menos o mesmo tempo; quer dizer, não é como o Monopoly ou o War, que podem virar uma noite sem terminar de jogar. Você tem a garantia que o jogo vai durar de 60 a 90 minutos, o que garante um bom entretenimento aos participantes e um esquema de rodízio rápido quando tem mais gente. Para quem tiver curiosidade, tomei uma sova no primeiro jogo (19 vs. 30), mas no outro jogo a vitória me sorriu (27 vs. 22). Com certeza jogaremos muito ainda!

O jogo tem um componente de estratégia bem elaborado; todas as ações tem que ser planejadas, e a graça do jogo é jogar pensando no monte de objetivos. Imaginem jogar War sabendo os objetivos de todo mundo; seria como colocar no meio do tabuleiro do War uns 5 ou 6 objetivos em comum para todos os jogadores, e ganha quem conseguir o maior número de objetivos. É uma guerra descarada, com muita ação o tempo inteiro, mesmo para a calma de um jogo de turnos.

Do lado histórico ou épico, o jogo conseguiu capturar a lenda de um jeito surpreendente. Cada um dos personagens é descrito com riqueza de detalhes; o caráter de cada um reflete diretamente no resultado do jogo, ao ponto e influenciar outros personagens. Para dar um pequeno exemplo, Tristão fica aflito se não estiver perto de Isolda, e se sente revigorado ao estar perto dela, mesmo que em times diferentes. Ou o caso de Sir Kay, que tumultua a vida tanto de quem tem ele na sua mão como a dos outros jogadores. A carta ao lado é o Glatisant, que gerou tanta polêmica no post por causa da princesa assanhada.

O mecanismo do jogo é simples, e basta um par de rodadas para pegar o jeito. Como todo jogo novo, requer um certo esforço e um pouco de paciência para entender o mecanismo, mas depois tudo flui normalmente. O jogo ainda oferece três métodos de jogo: básico, estándar e avançado, envolvendo mais ou menos cartas, e botando mais um par de regrinhas para ficar ainda mais agitado. No fundo, é um Super Trunfo mais elaborado, e que no meu caso além de ser um ótimo jogo, é sobre o tema que mais gosto de falar e ler.

Quem quiser comprar, vai por mim, o jogo é legal e a compra é tranqüila, tudo via PayPal. Entrega direitinho, e foi em um prazo que não esperava de tão rápido. Lembrando, tanto o jogo quanto o manual estão inteiramente em inglês, portanto estão avisados. Mas quem quiser arriscar, mesmo sem ter muita fluência, posso garantir que além de se divertir vai aprender um bocado de palavras novas! Basta entrar no site da Zman Games, e procurar pelo jogo dentro da seção de card games.

Até a semana que vem!

Honra de Cavaleiro

Vos agradeço, caros amigos e leitores, pelas manifestações de apoio após os infortúnios da semana que passou. Eis me aqui, defendendo a minha dama, servindo de companhia e oferecendo o ombro nesta má hora. Mas não seria cavaleiro digno o bastante, se não vos for grato pelos votos de boa fé.
Vereis-me redigir os textos que vos ofereço de forma costumeira, se assim a boa vontade e Nosso Senhor aprouver.
Após a hora nona, junto com o orvalho que dissipa, vereis um novo post. Aguardai, vos que tens paciência.

Bichinhos

Eventualmente as pessoas que se esforçam para manter um blog enfrentam crises de criatividade. Parece que o assunto foge, e não vem nada na cabeça. Nessas horas, cada pessoa tem uma saída diferente para encontrar um assunto para escrever; algumas procuram ler, ver tv, ficar na internet, sair, cinema, enfim, procuram alguma atividade para trazer assunto.

Eu não tenho essa necessidade de procurar fora de casa, já que tenho uma musa inspiradora ao meu lado. Nada como perguntar para a Marion sobre o que posso blogar quando está pegando no sono; consegue ter as idéias mais criativas que eu com certeza não poderia imaginar sozinho.

Eis que essa foi a situação uma destas noites. E depois de perguntar para ela sobre o que poderia blogar, me respondeu, entre dois bocejos, qual o nome do cachorro do Rei Arthur.
Bom, pensei. Claro que a corte de Camelot tinha cachorro. Tinha muitos, aliás. Mas dai a ter nome era meio difícil, já que nessa época os animais não eram vistos como criaturas de estimação, apenas como bichos úteis para algum propósito, e no caso dos cachorros eles eram utilizados para caçar.

Dei essa resposta sem esperar nada em troca, mas ela me disse então, já mais dormida ainda:

- E o cavalo do Arthur, como se chamava?

Embora a explicação fosse exatamente a mesma, parei para pensar no assunto. Quem sabe não precisava pesquisar um pouco... Ainda bem que pesquisei.

Llamrei

Esse singelo nome era nada mais e nada menos que o nome da égua do Arthur. Sim. Égua. Ele tinha uma égua, e não um cavalo.
Este nome vem do velho conto de Culhwch ac Olwen, conto este do que sobreviveram apenas duas cópias, e que faz parte dos clássicos da literatura celta. Eu falei um pouquinho só deste conto quando falei do graal, lembram? Me lembrem alguma hora de falar sobre esse conto, é bem legal.
Bom, o fato é que no conto, a égua do Arthur tem um papel importante, carregando não somente cavaleiros em combate, como também feridos e tantas outras coisas.

Segue um trechinho:

And after that Arthur went into Armorica, and with him Mabon the son of Mellt, and Gware Gwallt Euryn, to seek the two dogs of Glythmyr Ledewic. And when he had got them, he went to the West of Ireland, in search of Gwrgi Severi; and Odgar the son of Aedd king of Ireland, went with him. And thence went Arthur into the North, and captured Kyledyr Wyllt; and he went after Yskithyrwyn Benbaedd. And Mabon the son of Mellt came with the two dogs of Glythmyr Ledewic in his hand, and Drudwyn, the cub of Greid the son of Eri. And Arthur went himself to the chase, leading his own dog Cavall. And Kaw, of North Britain, mounted Arthur's mare Llamrei, and was first in the attack. Then Kaw, of North Britain, wielded a mighty axe, and absolutely daring he came valiantly up to the boar, and clave his head in twain. And Kaw took away the tusk. Now the boar was not slain by the dogs that Yspaddaden had mentioned, but by Cavall, Arthur's own dog.

" E depois Arthur foi para Armorica, e com ele Mabon filho de Mellt, e Gware Gwallt Euryn, para procurar os dois cachorros de Glythmyr Ledewic. E quando os acharam, ele foi para o oeste da Irlanda à procura de Gwrgi Severi; e Odgar filho de Aedd Rei da Irlanda, foi com ele. Depois Arthur foi para o norte, e capturou Kyledyr Wyllt; e partiu atrás de Yskithyrwyn Benbaedd. E Mabon filho de Mellt veio com os dois cachorros de Glythmyr Ledewic na sua mão, e Drudwyn, o cachorro de Greid filho de Eri. E Arthur partiu para a caçada, com seu próprio cachorro Cavall. E Kaw, da Bretanha do Norte, montou a égua de Arthur, Llamrei, e foi o primeiro a atacar. Então Kaw, of North Britain, da Bretanha do Norte, ergueu um fantástico machado, e absolutamente encorajado foi para cima do javali, e partiu a cabeça ao meio. E Kaw retirou o canino. Mas o javali não foi abatido pelos cachorros que Yspaddaden mencionou, mas por Cavall, o cachorro de Arthur. "

E não é que os cachorros tinham nome? E que Arthur tinha cachorro? Uma coisa que não posso deixar de mencionar é na sonoridade dos nomes em Welsh, neste caso céltico. Dá ótimas idéias para nomes de bichos, filhos e melhor ainda, senhas de computador.
Tem gente que acredita que Arthur teve outro cavalo de nome Hengroen, mas pelo que vi no conto, acho que é de outra pessoa...

And Sandde Bryd Angel (no one touched him with a spear in the battle of Camlan because of his beauty; all thought he was a ministering angel). And Kynwyl Sant (the third man that escaped from the battle of Camlan, and he was the last who parted from Arthur on Hengroen his horse).

" E Sandde Bryd Angel (ninguém tocou nele com a lança na batalha de Camlan por causa da sua beleza; todos acreditaram que fosse um anjo auxiliador). E Kynwyl Sant (o terceiro homem que escapou da batalha de Camlan, e o primeiro a deixar Arthur em Hengroen seu cavalo). "

Sei lá... é difícil saber. Algum palpite?

Até a semana que vem!

Aos Românticos

Eu tenho minhas fases românticas, algumas mais fortes, outras menos. Mas um sentimento que nunca me abandona e minha fé, minha convicção no amor romântico; o amor dedicado à dama, a honra do amor cortês. Sim, sei que estou ultrapassado, mas me sinto bem dessa forma, me dedicando de coração a amar, nos gestos simples e nos atos mais grandiosos que o amor verdadeiro pode gerar.

Encontrei meu conforto na literatura medieval, o supra-sumo do amor cortês. Fiz do Chrétien de Troyes e do Thomas Malory meus amigos de conversa, com quem troco os mesmos ideais. E nos dias de hoje, encontrei mais um cavaleiro perdido no tempo como eu: o Pedro do filme Romance, interpretado pelo Wagner Moura.

O filme conta uma história de amor entre Pedro e Ana (Letícia Sabatella, que está cada dia mais linda),que se conhecem ao montar uma peça de teatro sobre o texto de Tristão e Isolda; a beleza do conto é que mostra pessoas profundamente apaixonadas, o amor no máximo expoente. E sobre essa tela joga a relação da vida real de Ana e Pedro, com seus problemas de entendimento, falhas de diálogo, problemas tão reais como eles mesmos, tão humanos e imperfeitos.

O filme conta e repete várias vezes o conto medieval, e brinca com as imagens de quadros e pinturas que reconheço de ter visto tantas vezes, do lado dos textos que leio. Neste post, coloquei a que considero mais popular, O "Tristam and Isolde" de 1916 de John William Waterhouse.

Gostei do idealismo do Pedro, tão heróico e decidido. Gostei do bom senso da delicada Ana, tão femenina quanto as belas damas dos contos.. Gostei mais ainda da química deles. O filme é regado a vinho, como o vinho do amor que Isolda deu para Tristão no navío, enquanto viajavam para encontrar o Rei Mark. Com certeza, vai entrar para a videoteca de casa, eu vou assistir do lado do meu amor com uma taça do Malbec mais doce que encontrar.

Glatisant

And his name is Sir Palomides, the good knight, that for the most part he followeth the beast Glatisant.
(E seu nome é Sir Palomides, o bom cavaleiro, que a maior parte do tempo seguiu a besta Glatisant.)

Le Morte D'Arthur, Livro X, Capítulo LXIII


Glatisant, a lenda dentro da lenda


Há duas semanas falei dos bloquinhos de montar do Rei Arthur, onde encontrei o assunto da semana passada, Sir Lamorak. Lembram que o nome do brinquedo era "Lamorak e a Besta Assassina"? Então, essa tal besta assassina faz parte do bestiário clássico da lenda arturiana, muito conhecida e com direito a nome e tudo: Glatisant.
O nome vem do barulho dos gritos da besta, uma coisa parecida com 30 cachorros tumultuando quando vão caçar. Como isso não é muito comum nestes dias, especialmente entre os leitores do blog, peço para lembrarem qualquer pet-shop, um passeador de cachorros ou mesmo as madames com 5 peludinhos passeando na rua, e começam a latir desgovernadamente. Multipliquem isso por 6, e terão uma idéia da definição do Glatisant.

A Busca

A besta Glatisant faz parte de uma história secundária do lendário arturiano. O Rei Pellinore é o personagem principal desta história; ele é introduzido nos contos como um rei que nasceu com um propósito, com uma busca (quest) já designada. Normalmente, as missões dos cavaleiros eram circunstanciais, eram demandas que surgiam para atender uma necessidade. Já o Rei Pellinore não precisou perambular pelo mundo para achar sua demanda, sua busca: ela estava pronta assim que ele nasceu.
A família dos Pellinores, desde o pai do pai do Pellinore arturiano, tem por missão capturar viva ou morta a besta Glatisant. Com esse contexto, os mais diversos cavaleiros dão de cara com o Rei Pellinore, geralmente nos bosques encantados, no meio de outras missões pessoais. A lenda é bem recorrente no relacionado a Pellinore; é como conversar com pessoas que você não conhece muito, e quer forçar conversa, ou apenas ser gentil. É como conversar com os vizinhos de prédio no elevador:

- E aí seu Pellinore, tudo bem com o senhor?
- Ah sim, tudo ótimo, e você?
- Na boa, indo pra labuta... já pegou a Glatisant?
- Não, tô atrás dela ainda...
- Ah, tá... boa sorte então...
- Valeu, prá você também.
- ...

Nós vemos o Pellinore envelhecer no livro, e nada de catar a tal da besta assassina dele. Ainda assim, volta e meia algum cavaleiro que estava dando sopa sem nenhuma busca particular, emendava o tempo livre ajudando o Pellinore, acompanhando-o ou mesmo assumindo a busca quando o outro estava fora de combate, seja por estar ferido, em outro país ou qualquer outra desculpa (feriado administrativo, greve, etc.). Entre os cavaleiros que assumiram a busca, entra o Palomides, participante de um triângulo amoroso diferente: Tristão, Isolda e Palomides. É, todo mundo estava a fim da Beau Isolde.
Outro que teve sua fase de caçador da Glatisant foi o Lamorak, por causa de sua amizade com Palomides; eles enxergaram um no outro cavaleiros de grande honra e valor, e assim viraram amigos até o fim.
Existe uma outra interpretação da busca do Pellinore, feita por T.H. White no seu "A Espada na Pedra": ele nos apresenta um Pellinore muito hilário, caricato, um personagem meio lelé das idéias após anos atrás da besta. Avoado, gente boa, ou o clássico louco bom que não faria mal a ninguém.

A Cara do Bicho


Ela foi representada de várias formas, mas vou me manter na versão mais conhecida e popular, a do Malory. Daria um trofeú digno de qualquer parede:
Cabeça e pescoço de uma grande serpente; as patas dianteiras e o torso de um leopardo; os quartos traseiros e o rabo de um leão; e as patas de um cervo. Era uma criatura muito astuta; sempre está um passo à frente dos seus perseguidores. Cada autor enxergou a besta com tamanhos diferentes, desde um pequeno bichinho arisco até uma criatura monumental e ao mesmo tempo pacata, que bebe plácidamente dos lagos no meio do bosque. Eu a imaginei bem parecida com a imagem aqui ao lado: este desenho é de H. J. Ford, feito para ilustrar o "Tales of the Round Table" de 1902.

A Origem

Existem várias versões, como sempre um par delas tentando dar um sentido religioso à existência da criatura ("é o símbolo da confusão dos homens longe de Deus!!!"), mas prefiro a mais tradicional, com todo seu sabor a lenda:

Era uma vez uma princesa, bela e formosa. Ela tinha por irmão o mais belo príncipe que o mundo conheceu; era tão belo e galante como nenhum outro. Sua beleza era tal que sua irmã sentiu desejos de mulher com seu irmão príncipe; o desejava, o queria para ela. Confessou seu íntimo desejo para seu irmão, mas a nobreza dele o impediu de aceitar a desonrosa proposta, e recusou a oferta da princesa.
Perdida no desespero, ela invocou um demônio, ao que pediu seu ardente desejo de conhecer seu irmão na intimidade. O demônio ouviu atentamente, e com toda sua maldade, colocou apenas uma condição: a princesa devia se deitar com o demônio primeiro, e somente depois poderia ter seu príncipe irmão na cama.
O feitiço se virou contra a princesa, e depois de se deitar com o demônio, todo o amor que tinha pelo seu irmão virou ódio, rancor, desprezo. Ela engravidou do demônio, e no seu ódio acusou o próprio irmão de estupro. O príncipe foi condenado à morte, mas antes de morrer profetizou que da irmã nasceria uma criatura de aspecto horrível, um monstro. Assim nasce o Glatisant, que foge para a floresta. No fim, a princesa confessa sua armação, e é condenada a morte também.

É, a história não é para criança dormir, mas é bem a cara das histórias medievais. As primeiras menções da criatura aparecem no Perlezvaus, um romance de século 13, e posteriormente no Merlin, mas quem resgatou a imagem da Glatisant foi Malory, e por isso fiz questão de trazer para vocês a versão dele.

Até a semana que vem!

Sir Lamorak de Galis

Na semana passada mostrei alguns kits de bloquinhos de montar inspirados na lenda arturiana; mas um detalhe deveria ter chamado a atenção dos leitores. Um dos kits que mostrei tem por nome "Lamorak e a besta assassina". Afinal, vocês sabem quem é Lamorak?


O Ilustre Desconhecido


Dependendo para quem vocês perguntarem, Lamorak é um completo desconhecido, ou um personagem fundamental na lenda arturiana, mesmo que desenvolva um papel de coadjuvante. Esta diferença gritante de opinião condiz com a fonte consultada; Sir Lamorak de Galis surgiu como um personagem capaz de dar nexo a histórias que a princípio não teriam relação nenhuma.


Vejam só:

A um tempo já escrevi sobre o cavaleiro da charrete, história que viu nascer o Lancelot cavaleiresco e com ele o romance com Guinevere. Esta história foi contada por Chrétien de Troyes, onde Lancelot e Gawain partem para resgatar Guinevere, refém de Meliagrance. Gawain fracassa ao tentar atravessar a Ponte Sob-a-Água, enquanto Lancelot faz a proeza de atravessar a Ponte da Espada e consegue resgatar Guinevere.


Também escrevi sobre um conto muito mais antigo, o de Tristão e Isolda. Com o tempo o conto foi se transformando, até chegar no ponto no qual nosso herói Tristão teve "upgrade" para cavaleiro da távola redonda. Quer dizer, o conto foi incorporado ao lendário dos contos arturianos.


Estes dois contos, totalmente desconexos, acabaram se entrelaçando no texto do Thomas Malory. Sir Lamorak é mencionado pela primeira vez no texto inglês, e com isso um novo sentido foi dado à historia toda. Este novo cavaleiro serve como elemento de liga entre inúmeras histórias; ele pode perfeitamente ser removido sem afetar o desfecho das trilhas principais, mas acaba dando um sentido adicional, um contexto mais rico.


Agora posso me explicar melhor sobre o ilustre desconhecido: para a molecada inglesa, o Thomas Malory é o equivalente a um Shakespeare arturiano; é parte fundamental da história literária do idioma inglês, e com certeza material de estudo para azucrinar crianças levadas. Acho que o melhor equivalente na língua portuguesa seja Camões, cujo valor literário é inestimável. É a riqueza de preservar um texto antigo na sua essência. Por outro lado, quem nunca leu Malory ou o fez superficialmente, conhece provavelmente o roteiro base da lenda arturiana: Arthur puxa a espada, vira rei, casa com Guinevere, tem o rala-e-rola com Lancelot, surge Mordred, todo mundo morre.


É mais ou menos como ver os filmes do Harry Potter sem ler os livros; se pega a idéia principal do livro, mas somem todas as histórias paralelas que engordam o texto e enriquecem a leitura.


Afinal, quem é Lamorak?


Filho do Rei Pellinore, ele é o terceiro cavaleiro mais importante da vertente cavaleiresca ou romântica do texto do Malory, apenas atrás de Tristão e Lancelot, como segundo e primeiro respectivamente (embora eu acho que Gawain era para estar em segundo lugar, e que o Tristão está de penetra na lista).


Entre muitas aventuras, enfrentou 30 cavaleiros sozinho, até chegar Tristão para ajudá-lo; Lamorak e Tristão se enfrentaram várias vezes, até chegarem a um acordo de cavaleiros e cada um tomar seu rumo.


A história mais importante e cabeluda envolvendo Sir Lamorak é seu romance com a rainha de Ockney, Morgause, viúva do Rei Lot.


O detalhe bizarro da história é que o Rei Lot foi morto pelo Rei Pellinore, pai do Lamorak... Os filhos de Lot e Morgause acabaram sabendo do rolo de Lamorak e sua mãe. Assim, Gawain mandou Gaheris ficar de tocaia para pegá-los no flagra. Encontrou os dois nús na cama, e os atacou. Morgause morreu de forma nada romântica (sem spoilers desta vez...), mas a sorte de Lamorak não seria decidida nesse quarto. Para Gaheris, seria uma desonra matar um cavaleiro desarmado, e por isso o deixou ir.


A rixa entre os filhos do Rei Lot e Lamorak continuou por um longo tempo, com várias tentativas de assassinar Lamorak. Após tantas tentativas, era inevitável que isso acontecesse, fato que terminou de sujar a honra dos filhos de Lot. Só como detalhe, não esqueçam que Mordred era irmão de criação de Gawain, Gaheris, Agravain... E todos lembram como acabou o encontro entre Arthur e Mordred. Os problemas entre Arthur e os filhos de Lot são uma constante nos contos de Malory.


O Nexo


O que no fim não contei ainda é o papel de junção feito por Lamorak. No conto do seqüestro de Guinevere por Meliagrance, Lamorak encontra com Lancelot na bosque, e com muitos outros cavaleiros de diferentes histórias. Por um lado, Lamorak escuta Meliagrance dentro de uma capela, pedindo que Guinevere perceba seu amor e se apaixone por ele; Lamorak encontra mais tarde o Meliagrance no bosque, e diz que eles deviam justar, porque não concordava que Guinevere fosse a mais bela. Para ele, esse lugar era de Morgause. E assim os dois brigaram até aparecer Tristão, que os separou.


Em outras partes do conto, Tristão e Lamorak se encontram, brigam, se amigam, se encontram novamente, arranjam uma coisa qualquer para brigar, se separam de novo, e por aí vai. Quando Lamorak morre por obra de Gawain e seus irmãos, Tristão estava amiguinho do Lamorak, e lamentou muito sua morte. Ele se encontrou com os filhos de Lot em um torneio, e depois de um bate-boca o Tristão caiu fora, mas Agravain e Gaheris não se conformaram e foram atrás dele. Tristão acabou vencendo os dois, e seguiu seu caminho.


Assim, Lamorak é escalado no livro muitas vezes para servir de apoio ao roteiro, vencendo muitas justas, se metendo em muitas encrencas, e dando um sabor diferente à versão então conhecida de Troyes. Portanto, Lamorak é uma figura bem conhecida nos países da Grã-Bretanha, mas um bom desconhecido fora dela. Legal, né?


Até a semana que vem!


Mundo de Brinquedo

Eu era uma criança complicada. Não que fosse uma criança que dava trabalho ou que meus pais reclamassem de mim, mas eram meus problemas de saúde que complicavam minha existência, e a dos que estavam à minha volta. Tive vários probleminhas, alguns normais de toda criança, outros um tanto mais graves; o fato é que fiquei muito tempo de cama, e mais tempo ainda dentro de casa, quando era para brincar com outras crianças, correr e me desenvolver no físico.

Como isso não aconteceu, acabei desenvolvendo mais o lado intelectual; brinquei muito de bloquinhos de montar, tanto que meus bloquinhos sempre chegavam ao fim da sua vida sem conseguir colar mais um nos outros; eles simplesmente desmontavam.

Tenho uma saudade boa desses tempos de engenheiro de idéias. Eu era capaz de criar pequenos mundos, onde carros, aviões, dinossauros e tudo o que criança adora surgia das minhas mãos. Nessa época, eu não era ciente do meu gosto por lendas arturianas; hoje penso como teria sido fazer castelos, pontes, catapultas e tantas outras estruturas.

Bom, com toda essa historinha que contei talvez tenham agora a dimensão do que para mim foi uma grata descoberta: a Mega Bloks (marca de bloquinhos de montar muito popular aqui no Brasil) lançou uma coleção sobre a lenda arturiana.

Lamorak e A Besta Assassina

Além do lado fantasioso e épico que espero encontrar em um brinquedo, me chamou muito a atenção ver nomes um pouco mais obscuros da lenda, nomes não tão conhecidos como os do Arthur, Guinevere e Lancelot. O mais legal disso é despertar na criançada a curiosidade por saber mais, e quem sabe forçar os pais a procurar pela origem das lendas.


Batalha na Ponte

Não vi nenhum destes brinquedos de perto, mas podem ter certeza que vou prestar mais atenção da próxima vez que visitar uma loja de brinquedos.

Até a semana que vem!

Fazendo História

No post da semana passada falei um pouco sobre Geoffrey de Monmouth, e como seu trabalho reviveu as lembranças de um tal Rei Uther, pai de um tal Rei Arthur. Eu disse também que ele usou como fonte de informações textos antigos, dos séculos V e VI; aliás, essa foi uma as primeiras coisas que disse no blog, em Junho de 2007.

Essas tais origens da lenda arturiana sempre foram ponto de discussão. Sempre que falo sobre contos como os de Tristão e Isolda, ou mesmo do Eric e Enide, comento que a base dessas histórias são antigas lendas celtas com outros personagens, mas seguindo a mesma linha argumental. Já a lenda arturiana é por sí uma compilação de histórias. Sinto uma pitadinha de orgulho do post que escrevi na Páscoa sobre o Ciclo Vulgato, que exemplifica perfeitamente o que estou dizendo.

Ontem, eram 11 da noite, estava cansado, e ainda sem idéias sobre meu post de hoje. Decidi resgatar da prateleira o livrão do John Matthews, e mesmo com o cansaço complicando minha leitura acabei descobrindo sobre o que falar hoje: Quem inspirou Geoffrey?

Antes de continuar, não é um espanto ter linkado 5 vezes meu próprio blog? Será que os assuntos estão esgotando? Bom, no seu livro o John conta que com a partida do último galeão romano da ilha da Bretanha no século V, o país ficou meio que às moscas. O império romano estava recuando, perdendo terreno e procurando segurança na sua capital; os territórios conquistados na Espanha e na Armenia ganhavam novos donos, novos conquistadores.

Restaram até nossos dias pouquíssimos textos da época que contem pra gente como foi aquele período; mas do que sobrou, podemos observar alguns fatores que mais tarde seriam decisivos. Os romanos criaram novas estradas, interligando cidades; eles levaram ao pé da letra que o caminho mais curto entre dois pontos é uma linha reta, e fizeram estradas perfeitamente retas. As vezes me vejo pensando nisso enquanto estou preso no tránsito, e lembrando da minha Buenos Aires plana e de ruas perfeitamente paralelas. Os romanos tinham razão!

Junto com as estradas, os romanos trouxeram um sistema de governo pseudo-autónomo, uma escala hierárquica onde as cidades podiam se reger por conta própria, e contavam com recursos externos para crescer conforme demanda. Nisso as estradas aportaram as rotas de comércio, fundamentais para o crescimento destas cidades com o abastecimento e a exportação da produção local.

Com o tempo, os bretões começaram a ficar mais romanizados, ou como o John disse, "mais romanos que a própria Roma". A implantação do governo autónomo funcionou, e as regras de comum acordo entre cidades fizeram a economia prosperar.

Logicamente, com a partida do imperio romano, o que estava ruim ficou pior. É fácil imaginar um disse-me-disse de anos até de fato os romanos se retirarem; quantas pessoas de confiança não disseram para seus amigos mais próximos alguma confissão sigilosa sobre o futuro do país. Mas o fato é que muitos romanos acabaram fazendo sua vida por lá, casando com nativos da ilha e formando novas famílias, ou mesmo usufruindo as terras que conquistaram como pagamento dos serviços prestados ao exército romano, buscando o sossego de produzir na sua terra. Muitas pessoas decidiram não trocar as ondulações verdes e os profundos bosques da ilha bretã pela barulhenta e fedida Roma.

Entre os terratenentes que ficaram, existiam vários reis de tribos, interessados em ganhar status e poder com a partida dos romanos. Todos, sem distinção, cobiçavam a idéia de serem nomeados o "High King", com so outros reis ao serviço deles. Assim começou a Dark Age na Bretanha. De todos estes reis, teve um que finalmente obteve sucesso nesta empreitada; seu nome era Vortigern.

Este Vortigern, por incrível que pareça, nada tem a ver com o Vortigern da lenda arturiana, aquele da torre dos dragões. O que sabemos dele vem (finalmente!!) dos textos que sobraram da época; autores dos que comentei brevemente em um post ou outro.

Existem três fontes de onde tirar informação, nenhuma delas particularmente confiável, e eventualmente até contraditórias em certos aspectos. A primeira fonte, a mais extensa, e provavelmente a mais confiável seja a do monge Gildas, cujos escritos falam de fatos ocorridos no máximo 50 anos antes do texto. Seu trabalho é conhecido pelo nome de "De Excidio et Conquestu Britanniae" (queda e conquista da Bretanha), e pode ser definida como um protesto contra o tiranismo. Gildas coloca a culpa em Vortigern para tudo, chamando-o de "promotor dos costumes pagãos" em uma terra que recentemente tinha entrado para o Cristianismo. Olha só:

Assim todos os conselheiros, junto com o orgulhoso tirano Gurthigern (Vortigern), o Rei Bretão, estavam tão cegos que para proteger seu país acabaram selando seu fim convidando para o lado deles (como lobos no meio de ovelhas) os violentos e impíos saxões, uma raça odiada por Deus e pelos homens, para repelir os invasores do norte (pictos, escoceses..).

Tirando o exagero literário do Gildas, fica claro que o país estava indefeso, pronto para o festim de qualquer conquistador. A segunda fonte é o monge Nennius e seu Historia Brittonum, o texto dele mais tardío (séc. VII) e um pouco diferente do texto do Gildas, embora relate os mesmos fatos. Nas palavras do Nennius, é um apanhado do que conseguiu achar, misturando textos vários às tradições que sobreviveram ao tempo.

Por anos os Bretões viveram com medo. Vortigern era rei, e durante seu reinado foi ameaçado por pictos e escoceses. Nesse tempo, três navios vindos da Germania trouxeram grandes homens, entre eles os irmãos Hengist e Horsa, filhos de Guietgils, filho de Guitta, filho de Wodin...(...) filho de Geta, o que os faz filhos de Deus, não o nosso Deus dos Deuses, Amém, mas do Deus dos exércitos, que eles idolatram. Vortigern os recebeu de braços abertos, e lhes entregou a ilha que eles chamaram de Thanet, que os Bretões chamam Rudhim...

De novo, é o Vortigern o grande vilão quem recebeu os saxões todo feliz e contente, embora o contexto diz que eram homens vindos de navio. Provavelmente, exilados do próprio país por crimes ou coisa parecida, mas isso nunca saberemos ao certo, acho. Era comum entre os saxões se mostrar descendentes de deuses (neste caso Wodin), o que seria um símbolo de status e reconhecimento, e fama claro.

A última referência da época vem do "The History of the English Church and People" do Venerable Bede. Muito bem, pausa aqui. Como assim, Venerable?

Conforme ao diccionário Longman de cultura inglesa, Venerable é o equivalente a Archdeacon. Eu já ouvi falar de Archbishop (arcebispo) mas nunca de Archdeacon (arcediácono). Até onde sei, diácono é o cargo de um oficial da igreja imediatamente abaixo de Padre, portanto, o que sería um Arcediácono? Quem souber favor responda nos comentários; eu vou chamar de Venerable, como na Inglaterra mesmo.

O Venerable Bede é considerado um dos mais precisos relatores do Dark-Age, e tem tudo para ser contemporâneo ao Gildas e ao Nennius. Seu livro, escrito em 731 dC, conta o seguinte:

No ano 449 do nosso Senhor, os Anglos e os Saxões vieram a Bretanha por convite do rei Vortigern em três grandes navíos, e ganharam terras no leste da ilha com a condição de proteger o país; mas sua verdadeira intenção era atacá-lo.

Os três textos concordam em certos trechos. Os guerreiros germânicos chegaram em três navios, Vortigern lhes pagou por proteção. Não era a primeira vez que os bretões negociaram com invasores, dando terras para que de certa forma sossegassem e sirvam de primeira fronteira. A única certeza é que de fato Vortigern ou seus assessores calcularam errado onde estavam se metendo.

Gildas, Nennius e Bede são o que nos restou de base sobre o Arthur histórico, a provável origem real do Arthur de ficção. E com essa colaboração imprevista, estes homens não somente contaram a história, também a fizeram.

Até a semana que vem!

Spoilers


Em geral não gosto de spoilers, mas vou dar alguns desta vez. Me surpreendi muito enquanto assistia o episódio 5 do novo seriado "Merlin". Já falei um pouquinho do seriado, especialmente pelo fato de distorcer totalmente a lenda arturiana; mas para meu espanto, este episódio puxou uma das referências mais curiosas que já vi fazer. Pela primeira vez, um seriado mais fantasioso que a própria fantasia fez uma referência histórica digna da BBC, digna da produtora do seriado.

Neste episódio, conhecemos Lancelot como um jovem que quer ser cavaleiro, mas não tem título de nobreza e portanto não é digno de fazer parte da corte de cavaleiros de Camelot. Por ajuda do Merlin, consegue um falso título de nobreza, e passa por vários testes até conseguir ser nomeado cavaleiro. Neste título, ele é anunciado como quinto filho do rei Uriens, mas Uther lembra claramente que Uriens somente tem quatro filhos, e pede para o escrivão da corte conferir a heráldica, a veracidade do título nobre do novo cavaleiro.

Até aqui, nada demais. O meu espanto foi o nome do escrivão: Geoffrey de Monmouth.

A piada é que uma das maiores referências para a lenda arturiana medieval tem por autor ninguém outro que o Geoffrey. Já falei dele algumas vezes, mas pelo que percebi nunca falei como um post dedicado o que facilitaria simplesmente linkar aqui e pronto. Mas resumindo muito o lance dele, por volta de 1136 escreveu um livro chamado Historia Regum Britanniae, ou Historia dos Reis da Britania, livro que foi considerado como dado histórico autêntico por muitos anos, contando um periodo que se estende de 1100 AC até pouco antes do 700 DC. Quer dizer, os galeses de fato acreditaram durante muito tempo que Uther, Arthur, e até o Merlin faziam parte da história do seu país, que tinham de fato governado aquela terra.

Foi muito engraçada a sutileza da piada feita no seriado ao colocar uma pessoa real no meio desse contexto altamente fantasioso; ter colocado um escrivão que existiu como a pessoa que cuidava dos livros, das patentes e títulos do reino. Parabéns à BBC pela idéia!

Teve mais uma piada bem sacada, acho que pela primeira vez mencionando uma referência correta à lenda, que é o triângulo Arthur / Guinevere / Lancelot. Com a vinda do Lancelot para o reino (interpretado pelo ex pintor maconheiro e morto do Heroes), rolou um clima clássico entre Lancelot e Guinevere. Pouco depois, na celebração para os novos cavaleiros, Arthur e Lancelot compartilham o mesmo banco, sentados juntos e bebendo; Guinevere os olha de longe, e Merlin lança uma pergunta:

- Gui, se você tivesse que escolher um deles, com quem você ficaria? - Ai Merlin, isso nunca vai acontecer, imagina...

Muito. Bem. Sacado. Sem perder o ar sacrílego do seriado, conseguiram fazer uma ótima referência para satisfazer a horda de arturianos fanáticos que pretendiam incendiar os estudios da BBC. Mais um pontinho para eles.

Fuçando o blog, percebi que teve dois assuntos que de fato não explorei, ou pelo menos não contei direito; um deles é o próprio Lancelot (com quem encerraria o triângulo), e o outro um post somente sobre os textos do Geoffrey, talvez falando no começo do Nennius. Vou pensar no assunto.

Até a semana que vem!

Camelot 3000 - Arthur no futuro!

Aconteceu, por acaso, que buscando uma e outra coisa na internet dei de cara com um gibi. Por curioso que pareça, no meu post anterior contei que o Prince Valiant tem toda a cara de ter nascido de um gibi, mas neste caso os quadrinhos não são sobre ele.


Uma série de 12 episódios escrita em entre 1982 e1985 veio contar uma história diferente. Olha só:

No ano 3000, a Terra é invadida por alienígenas, e os líderes do mundo se esforçam para enfrentar esta crise. Como a lenda conta, o Rei Arthur não morreu, mas descansa e aguarda para retornar quando sua amada Britania precisar dele... E teria um momento mais idôneo para ele retornar? Por um acaso, um zé mané tromba com um túmulo em uma escavação em Stonehenge, e dela surge Arthur para salvar a pátria. Com ele, outros personagens aparecem aos poucos (como Merlin por exemplo), mas a grande sacada é que os cavaleiros e outros personagens importantes da trama simplesmente se incorporam no corpo de pessoas vivas.

O gibi tem lados bons e lados ruins. Vamos ao ruim primeiro:

Os textos estão muiiiito ultrapassados, datados eu diria. Lendo algumas frases e olhando desenhos vemos que os ETs tem cara de insetos, andam como gente, usam armas "laser"... digamos, todo bem óbvio. O tom de discussão política envolve o confronto entre as potências da USA vs. URSS, e outras coisas bem gritantes dizendo "eu fui escrito nos começos dos 80". Ainda bem que tudo isso pode ser relevado, e até pode ser divertido como uma viagem no tempo.

Quase Cult

O lado bom é que este gibi abriu caminho trazendo um discurso adulto, e uma nova leitura à lenda arturiana; tudo bem que não é uma série que se destaque pela inventiva e criatividade, mas deu novo sentido aos personagens colocando-os em um cenário totalmente inusitado.O triângulo entre Arthur, Guinevere e Lancelot é recontado, assim como a busca do Graal e outros tantos eventos que fazem parte da lenda original.
Sobre o gibi, o roteiro é de by Mike W. Barr, desenhista Brian Bolland , e coloristas Bruce Patterson (1-6), Dick Giordano (6), e Terry Austin (7-12), publicado pela DC Comics. Como disse no começo, foi publicado entre 82 e 85, publicado novamente em 1998 encadernada em uma única edição, e agora reestréia em uma edição de coleccionador em capa dura, que está em pré-venda e tem data marcada para o 2 de Dezembro de 2008. Papai Noel, pensa nisso...

Deixo com vocês a primeira edição escaneada (de onde tirei a capa que ilustra o post), se divirtam lendo comigo o renascer do Arthur... Para ler, basta clicar em cada imagem. Detalhe: podem baixar as imagems ampliadas com click-direito e escolhendo "salvar link", ou com click-direito na imagem ampliada e usando "salvar imagem". Boa leitura!

Pág.01-05


Pág.06-10


Pág.11-15


Pág.16-20


Pág.21-25


Mais nos próximos gibis! Até a semana que vem!

O Príncipe Valente

Prince Valiant, ou O Príncipe Valente, é um dos mais recentes acréscimos à lenda arturiana. Recente em termos; é recente considerando desde quando a lenda arturiana existe em si, mas para os nossos dias internéticos até que já tem seu tempinho.

O Sylar Medieval.

A idéia de escrever sobre o Prince Valiant veio por aparecer como vilão no segundo episódio do novo seriado "Merlin" da BBC, do qual falei apenas dois posts atrás. Encontrei mais gente revoltada com as reformas da história, com argumentos convincentes diria, mas teve uma preocupação em mencionar um fator que eu não tinha me mancado. As crianças que assistirem este seriado terão essa versão como a primeira, o que de certa forma é muito prejudicial. Concordo que afinal lenda é lenda, mas o risco de deseducar é alto. Ainda bem que tem blogs como o meu, heehee! A mensagem para os pais é: Coloquem as crianças para ler, seja em livros, seja no computador. A questão não é o meio, é o conteúdo.

New Kid On The Block

Primeira parada: Sir Thomas Malory. Procurei no livro de ponta a ponta, no índice, no glossário, e até na versão digital (onde procurar é muiiiito mais fácil). Nada de Prince Valiant. Aí eu me disse "Êpa, aqui tem coisa rara...". Marion tá de testemunha que falei isso mesmo. Bom, o fato é que eu lembro do nome, de ter ouvido "Prince Valiant" e "Arthur" na mesma conversa, na mesma linha, mas o fato de não localizar nada sobre ele no Le Morte d'Arthur de 1485 quer dizer que não vai ter referências dele nem nos livros do Chrétien, nem no Historia Britannae de Nennius, nem em nada anterior ao período medieval. Talvez, e somente talvez, tenha alguma referência nos contos do T.H.White, que são bem mais recentes, ou mesmo nos textos do Christian de Montella, contemporâneo nosso, mas não pesquisei nesse material até porque não vivo de blogar. Quem sabe este post não ganhe um update mais na frente.

Para não dizer que não encontrei nada no Malory, tem a menção do Sir Villiards O Valente, nomeado cavaleiro pelo Sir Lancelot, e mais tarde nomeado conde de Bearn também pelo Lancelot; acontece que no Malory, Lancelot fica dono de boa parte da França e da Itália, e na que sería sua última viagem ao território francês ele não somente divide as terras como coloca condes e duques para governar cada uma, homens da sua confiança. Isto ocorre no cap. 18 do segundo livro, bem perto do fim.

Então, se não há referências ao tal Príncipe Valente, de onde ele veio?

Heroi dos Quadrinhos

A referência mais antiga que achei foi um gibi. É. "Prince Valiant in The Days of King Arthur" é um gibi de 1937-1938 escrito por Harold P. Foster, que hoje podemos localizar em diferentes impressões como coletâneas por volumes. Foi produzido um livro de capa dura para cada ano da tirinha, usando cópias da edição colorida publicada no Sunday. Entre os itens de colecionador mais raros que encontrei na internet, tem um disco em vinil com as histórias gravadas em formato de conto. Isso é que é um podcast do passado.

Hal Foster (como assina nos gibis) escrevia a tirinha do Tarzan quando foi requisitado para uma nova tirinha para uma série de jornais. Inspirado nos ideais da cavalaria e dos tempos medievais, távola redonda e etcéteras, ele criou o tira "Derek, Son of Thane". A tirinha estava ótima, a idéia era excelente, mas o nome era uma caca. Então simplificaram para "Prince Valiant", e foi um sucesso estrondoso.

A história no gibi se destacou por vários fatores:
  • A proposta de mostrar os tempos medievais foi muito fiel nas suas referências.
  • Os heróis não eram perfeitos, tinham seus erros, eram humanos como qualquer um.
  • Os vilões tinham também sua pontinha de nobreza eventual.
  • Os personagens envelheceram naturalmente com os anos.
  • A humanização deu lugar a uma mistura única de dramas familiares e fantasia.
A história ocorria principalmente em Camelot da Britania, mas os contos levaram os personagens para os lugares mais insólitos, como a misteriosa China e até o deserto do Sahara.

Herói Revisitado

O Prince Valiant serviu de inspiração a outras artes também, não morreu nos quadrinhos. A Fox produziu um filme em 1954, que conforme o IMDB "conta a história de um jovem príncipe Viking ansioso por formar parte da corte de cavaleiros do Rei Arthur, e assim ajudar seu exilado pai a retomar o trono das suas terras". Curiosamente, o conto do Chrétien "Cliges, ou a que se fingiu de morta", escrito no século 12, conta uma história similar sobre um tal de Alexandre, Príncipe da Constantinopla, que viaja de remotas terras para se formar cavaleiro na corte do Arthur. Curioso. Quem sabe não achei minha referência ao tal "príncipe valente".

Mais recente ainda, houve um desenho animado produzido em 1991 pela Hearst Entertainment, a mesma do Popeye, e com uma cara total de Caverna do Dragão. Olha só:




Finalmente, mais um filme, desta vez produzido na Alemanha em 1997 com o mesmo nome. Pouca info sobre o filme, e pelo pouco que vi tem toda a cara de ser de baixo orçamento. Se achar até assisto, já sabem como eu sou.
A capa de fato não diz muito, e a pontuação de 4.8 no IMDB também não ajuda. Mas, considerando tudo o que já assisti, acho difícil me surpreender com alguma coisa...

Até a semana que vem!

Pedra Sobre Pedra

Este post foi sugerido indiretamente pela minha Marion baseado em uma reportagem que ela encontrou por acaso na internet.
Fiz uma busca no meu próprio blog sobre Stonehenge, e para meu espanto, ainda não fiz um post dedicado somente a ele, mesmo dedicando alguns parágrafos perdidos em alguns posts que tinham relação com o famoso monumento de pedra, como o lance de ser o túmulo do Uther, o Merlin ter transportado as pedras, etc, etc...
Faz um certo tempo ouvi falar do trabalho de um grupo de arqueólogos interessados em aplicar as técnicas atuais para determinar a idade aproximada das pedras, das escavações e dos objetos encontrados por lá; a idéia é aplicar o famoso Carbono 14 dos filmes para determinar com certo grau de acerto quando exatamente essas pedras foram parar a 250 km do seu lugar original para formar um círculo calendário. Pois é. As tais pedras vieram do sul do País de Gales, e formam o que provavelmente seja o monumento pré-histórico mais famoso da humanidade.
Então, os cientistas extraíram várias amostras orgânicas do local, tiradas da única escavação permitida pelas autoridades; um buraco quadrado de 3,5 mts por 2,5 mts entre os dois círculos de pedra.

Cientistas descobrem que o Laser Disc é pré-histórico.

O resultado dos testes com radiocarbono deu valores entre 2400 e 2200 a.C., portanto os cientistas disseram que "tá na média de 2300 a.C.". Resposta brilhante a deles, imagino quanto tempo levaram para chegar na tal "média"...
OK, pra gente isso não diz nada, afinal passar do 2600 a.C para 2300 a.C. dá exatamente na mesma pra nós, mas para os cientistas diz muita coisa. O fato das pedras serem 300 anos mais "novas" revela um pouco mais sobre o período histórico na qual foram erguidas, sobre a tecnologia disponível e sobre os costumes da população em geral, o nível social, hierarquias, etc.
Uma das maiores teorias hoje é que Stonehenge tenha sido um centro de curas, já que nas proximidades das pedras foram encontrados muitos corpos com ferimentos graves, ou mesmo evidências de doenças fatais, e pelas pesquisas feitas nesses corpos foi possível determinar também que eles não eram da região; quer dizer, gente ferida e doente que viajou ou foi mesmo trazida até o lugar.
Entre estes corpos, um particularmente chama a atenção, que ganho o apelido de "Arqueiro de Armesbury" encontrado a quase 5 Km de Stonehenge e que curiosamente bate no radiocarbono a idade das pedras. O tal Arqueiro de Armesbury é famoso pelas riquezas encontradas no seu túmulo (momento Indiana Jones / Lara Croft agora), muitas delas peças de metal trabalhadas, e que evidenciavam que este homem viajou dos Alpes europeus até a remota Inglaterra para ver as pedras.
Nem todo mundo aceita a teoria do centro de curas; outros cientistas defendem que o tal Arqueiro só foi até Stonehenge para vender suas tralhas, considerando quanto as pedras deviam ser famosas e quantas pessoas ricas o suficiente para viajar poderiam estar lá. Digamos, um muambero pré-histórico.
Resumindo, a reportagem não diz muita coisa na verdade, mas ao mesmo tempo traz o assunto à tona novamente; para quem quiser saber meeeeesmo sobre Stonehenge, recomendo o site oficial "www.stonehenge.com.uk", ou mesmo para quem tiver a sorte de "encontrar" por aí, tem um ótimo documentário da BBC que conta inúmeros detalhes sobre os círculos de pedra, especialmente o que deu assunto a este post.

Até a semana que vem!

Temporada de Seriados

Começou a temporada de seriados lá fora, e com isso a banda larga no Brasil sentiu o impacto de milhões de usuários baixando de tudo, e entre eles as turminhas de amiguinhos felizes que perdem uma madrugada para serem os primeiros a lançar uma legenda em português.
Assisti algumas coisas, outras estão na fila ainda. Tem seriados pelos que estava ansioso pela volta, mas esta "Niú Siasum" trouxe algumas novidades bem bacanas. E entre elas, para espanto geral da galera, um seriado arturiano produzido pela BBC.

Merlin

Assisti o primeiro episódio ontem à noite. Vou contar alguns fatos do seriado, que embora sejam espóilers (detalhes da trama) não interferem para quem vai assistir. São meras comparações entre a história apresentada no seriado, e a que conheço como tradicional.

O seriado conta a história de um jovem Merlin, enviado pela sua mãe para viver na cidade grande, neste caso Camelot, atualmente governada pelo Rei Uther Pendragon, um rei que há 20 anos proibe a manifestação e prática da magia no seu reino.

A frase acima resume os primeiros 3 minutos do seriado, e já revela bastante sobre o rumo das coisas. Primeiro, acho ótimo e muito bem-vindo um seriado que escolheu contar a história épica-romântica, o período dos cavaleiros medievais, donzelas na torre e etc. Fascínio total por essa fase. Vai ver já tive uma vida nela, sei lá. A segunda questão é que encontramos Uther governando Camelot há 20 anos, sem intervenção do Merlin; quer dizer, o seriado ignora completamente a linha tradicional e parte para uma nova história, utilizando os mesmos personagens e período pseudo-histórico. Para os esquecidinhos, Uther somente chegou ao reinado depois de derrotar o rei Gorlois e possuir Igraine, entrando no castelo de Gorlois em Tintagel fantasiado como o próprio Gorlois através de um feitiço do Merlin. Quer dizer, se Uther está "reinando" em Camelot há 20 anos e somente agora aparece Merlin como um adolescente, não preciso saber mais para descartar tudo o que conheço da história, e abrir a mente como bom espírito para ouvir uma história completamente diferente da que conheço. E em terceiro lugar, meu caro Uther Pendragon se revela um rei avesso à magia, o que coloca o Merlin em péssimos lençóis.
A produção, em linhas gerais, tem reduções orçamentarias. Tem um certo gasto em efeitos especiais, mas tem cenas onde percebe-se um fundo pintado, ou mesmo falta de talento ao interpretar no elenco desconhecido.
Outras grandes inversões na trama são mostrar uma jovem Morgana muito bonita, e uma Guinevere fulera. Fulera não, feia mesmo. Nada contra a moça, mas acho que foi liberdade autoral demais colocar uma Guinevere assim. Subitamente bateu saudade da "ruiva fatal" dos textos do Cornwell. Foi também um exagero, mas caiu muito bem no livro e na história que se propôs contar.
Não me atrevo a contar mais para não queimar o filme de quem for assistir; resumindo muito, o seriado não me empolgou, mas quero dar tempo a ele e vou acompanhá-lo, para ver como evolui. Nem sempre é a melhor postura se deixar levar pela primeira impressão; acredito venham surpresas pela frente.

Site Oficial
Até a semana que vem!

Spam A Lot

Os musicais andam rondando minha cabeça, e de todo mundo. Fora a histeria coletiva por causa do show da Madonna, trago a atenção para musicais como os de antigamente, no estilo da Broadway. A primeira referência obvia nestes dias é o Mamma Mia, baseado nas músicas dos elfos do Abba, que se recusa a sair da minha cabeça e da trilha musical do CPD de casa, tocando maciçamente no note da Marion, seja como youtube ou mesmo como mp3. Tecnologia é para essas coisas, e afinal eu gosto das músicas também, não vou negar. Acho bem bacanas e divertidas.
Outro musical que serve de exemplo bem lembrado nestes dias é o "Hello Dolly" (1969), musical que ilustra e inspira a história de amor por trás do Wall-e. Cenas de dança clássicas, coreografias e músicas empolgantes, o que faz os musicais serem tão populares e sempre voltar de uma forma ou outra ao público.

Então, tudo muito legal, mas o que tem a ver com o Arthur?

Nos primórdios do blog, quando falei sobre o Arthur pop, comentei sobre o filme do grupo británico Monty Python, chamado "Monty Python and The Holy Grail". Este grupo famoso por filmes como "A vida de Brian" produz um tipo de humor típicamente británico, com piadas bobas que juntas formam uma obra magistral. Eis que eles, além de produzirem o filme, tiveram a idéia de produzir também um musical baseado no filme, na palavra deles "carinhosamente roubado do filme". E assim o nosso Arthur ganhou um musical esculachado e divertido, ou como a crítica do Sunday Times disse, "é a idiotice transformada em obra de arte".
Claro que teve peças de teatro, obras e filmes com atores de peso como o Sean Connery, mas acho que no fim, no fim mesmo, o que mais combina com meu blog é o Spam-a-lot. Esse foi o nome que deram para o musical, que continua em cartaz em várias cidades.
Querem saber mais? O site oficial vale o tempo que passei nele, visitando e rindo com os comentários.
Como propus no post anterior, se alguém estiver por acaso em Las Vegas ou na Broadway e passar pelo show, além do comentário me tragam o pin dos Cavaleiros que dizem Ni! como lembrança... para mim essa cena do filme é inesquecível.

Ni pra cês também, e até a semana que vem!!

Cabeça de Muié

Estou na página 276 do "Las Nieblas de Avalón" (Brumas de Avalon) comprado em Buenos Aires, e não estou nem perto de terminar o livro, só para constar.
A última página deste livro é a 624, e é o livro mais densamente impresso que vi na minha vida. A impressão não deixou lugar sequer para segurar o livro aberto, o texto vai da cola no meio até a borda do papel, e a mesma coisa por cima e por baixo; apenas uma linha de texto abaixo isolada para mencionar o número da página. O exagero é tal que o livro termina exatamente na última linha possível da última página, e não tem papel sobrando, já vem a capa de papelão. O livro é trabalhoso de ler, a tipografia não é grande e tem pouco espaçamento, mas mesmo com todas estas dificuldades estou fazendo meu caminho (devagarrrr) até o fim. Não que não conheça a história, mas quero ter o prazer de lê-la, e tirar minhas próprias conclusões.

Ia comentar o livro somente quando terminá-lo, mas ao passo que vai é provável que esqueça sutilezas interessantes até chegar no fim e escrever de fato.

Vou lançar de tempos em tempos alguns comentários sobre o livro, pode ser em formato de post exclusivo ou mesmo como comentário curto dentro de outros posts; vai de lua, que aliás é um símbolo importante e recorrente no conto das Brumas.

Quem assistiu o filme de Brumas começa com vantagem. A produção de TV, mesmo longa de assistir, é infinitamente menor que o livro em termos de detalhes, e vai ao que interessa; não que o resto não seja interessante, mas tem segmentos do livro que parecem ser lero-lero literário. O lero-lero literário é a arte de esticar o andamento do conto, ao melhor estilo dos autores de novela televisiva, porque qualquer novela de 9 meses poderia durar menos de um mês, se for aos fatos mesmo. Como ia dizendo, a vantagem de ver o filme antes é ter uma linha de tempo mental clara sobre os acontecimentos, e perceber mentalmente em qual ponto da história nos encontramos; sem essa ajuda, é bem provável que os fatos fiquem um pouco confusos.

Muito bem, vamos ao livro mais decididamente feminista que li na minha vida (e essa fala não é minha... tá bom, é sim). Marion Zimmer Bradley era uma defensora dos direitos das mulheres, e freqüentemente beirava o lado radical do feminismo; e o livro transparece isso nítidamente. Os homens do livro são apenas parte do cenário, e somente aparecem quando é interessante para a trama e para as mulheres na história que eles se encontrem por perto. Pode ser impressão minha, mas afinal, o blog é meu, se não escrevo minhas impressões, vou escrever quais?

Sobre Veados e Chá de Cogumelos

Muito bem, vamos a uma das seqüências mais clássicas. Morgana, filha de Igraine e Gorlois (a mãe primeiro...), estava morando em Avalon sob os cuidados da sua tia, Vivian. Vivian é sacerdotisa de Avalon, à la Mãe Superiora, dona da sabedoria, voz da Deusa e etc. Morgana tem por missão substituir sua tia quando ela se retirar, portanto tem um peso enorme em cima dela para ser sempre a melhor, a mais digna, uma verdadeira filha da Deusa. Ela obedece cegamente, segue todos os rituais, se consagrou a Deusa em corpo e mente.
Existe um ritual antigo druida, onde um jovem caça um cervo lutando apenas com suas mãos e uma adaga; este confronto é mortal, e um deles sempre sai morto, seja o cervo ou a outra besta que foi atrás, leia-se o Gamo-mor. Uma vez que o jovem consegue a vitória, ele ganha um chá de cogumelo do capeta, deixam ele pelado, colocam pinturas no rosto, jogam o couro ensangüentado do cervo que caçou por cima dele, colocam uma máscara com chifres de veado, e o levam para uma caverna. Básicamente como em todas as despedidas de solteiro.
Nesta caverna, aguarda uma jovem, que também ganhou o chá de cogumelo, e que simplesmente se entrega ao moço. Desta noite de "loucura" costuma nascer um filho, que vem a ser o filho da Deusa, consagrado através dos rituais de Beltane.
Acontece por acaso (acaso nada! tudo tramóia da Vivian!!) que a jovem é Morgana, e o moço... Arthur, seu jovem meio-irmão. E o que não era para descobrirem, descobrem logo depois de transar. Sim, Arthur sacou, mesmo confundido ainda pelo chá, que acabou de "ritualizar" a sua própria irmã.
Esta armação toda foi obra da Vivian, com um simples motivo: Morgana era decididamente filha do povo das fadas, filha de Igraine, carregando sangue digno e vindo de Avalon. Era a sacerdotisa perfeita, o corpo da Deusa (figurado, tá?) na terra. Arthur, nascido de outra tramóia (do Merlin esta vez), carregava sangue legítimo tanto de Avalon pela sua mãe Igraine, como do Uther, que respeitava os ritos e fora em outros tempos e outras vidas um sacerdote das antigas, dos que conheciam os mistérios e falavam lado a lado com os Deuses não só das Pedras (Stonehenge) como também o Atlantes.

Fumei.
Quer dizer, Marion ZB fumou.
Ou tomou o mesmo chá. Antidoping nela!

Mulheres Ciumentas

Um episódio clássico femenino é o do encontro de Lancelot e Morgana em Avalon, bem prévio ao momento acima. Ocorre que Lancelot é filho de Vivian (Lancelot do Lac, Lancelot do Lago, Vivian, sehora do Lago, senhora de Avalon... tá legal?), portanto isso o faz primo de Morgana, e de tempos em tempos o jovem e galante Lancelot voltava para visitar sua mãe. Ele não tinha a manha de entrar em Avalon sozinho, precisava sempre de uma sacerdotisa capaz de separar as brumas para entrar na ilha. Digamos, tinha um serviço de barquinhos com sacerdotisa de plantão, tipo táxi, que levavam as pessoas para dentro ou fora da ilha. Traduzindo, para que alguém pudesse chegar até a ilha sempre precisava que uma sacerdotisa tivesse a boa vontade de sair e trazê-lo junto para dentro. Em outras palavras, se uma muié não levava o cara para dentro da ilha, ninguém entrava, nem mesmo os barqueiros que faziam a viagem toda hora.
Bom, isso facilita mais ainda o roteiro, já que somente vai ter um macho-alfa zanzando pela ilha quando for "conveniente" para o roteiro, mesmo que o tal seja as vezes inconveniente com as sacerdotisas.
Como dois primos bobos, Morgana e Lancelot foram passear no morro em Avalon, onde ficavam as pedras cerimoniais, um círculo de pedras usados durante os rituais de adivinhação. Desde este ponto era possível enxergar os limites da ilha e a bruma que circundava e protegia a ilha, mantendo o lugar sagrado. Morgana levou uns lanchinhos para o piquenique, e Lancelot se recostou na grama, cansado por cavalgar a noite inteira vai saber de onde até chegar na ilha. E rola um climinha.

Ele comentou, falando baixo:
- Aqui, nesta ilha mágica, resulta fácil sentir a cócega do poder do ar e da terra -afastou o olhar e espreguiçou num bocejo-. Escalar até aqui deve ter me cansado, junto com a cavalgada desta noite. Quero deitar na grama e aproveitar este sol, e comer um pouco do pão que você trouxe.
Morgana o levou até o centro exato do círculo de pedras, pensando que, se ele tivesse qualquer sensibilidade, perceberia o grande poder que tinha naquele lugar.
- Deita na grama, ela irá te recarregar -disse enquanto lhe dava um pão com manteiga e mel. Comeram devagar. Ele pegou na mão dela, brincalhão, para lamber o mel que tinha ficado nos dedos dela.
- Como você é doce, prima - e riu.
Ela sentiu que todo seu corpo ganhou vida nesse toque. Segurou a mão dele para devolver o gesto, mas subitamente a soltou como se estivesse queimando; o que para ele era apenas um jogo, para ela nunca ia ser. Virou as costas, escondendo na grama a face vermelha. A energia do lugar corria pelo seu corpo inteiro, ficando com tanta energia como a própria Deusa.

(...)foram para outro canto, lará lará...(...)

Lancelot perguntou, falando baixo:
- Já participou do fogos de Beltane? Já serviu à Deusa?
- Não - respondeu Morgana, com a voz apagando. - Serei virgem enquanto a Deusa o quiser assim; e bem provável que me reserve para o Grande Matrimônio.
Inclinou a cabeça, para que o cabelo cobrisse seu rosto. Na presença dele era tímida, como si ele fosse capaz de ler seus pensamentos, e adivinhar o desejo que a invadia. Estaria disposta a abandonar sua virgindade se ele o pedisse? Até então, a proibição nunca tinha sido um peso; mas agora era como se entre os dois houvesse uma espada de fogo.
(...) Por fim Lancelot se aproximou dela e deixou um beijo suave na sua testa, na pequena lua azul da sua testa, que ardeu como fogo.
Sua voz foi suave e intensa:
- Todos os deuses me proíbem invadir o que a Deusa reservou para ela, querida prima. Você é tão sagrada como a própria Deusa.
Ele a segurou perto, tremendo. Ela percebeu o tremor, e a felicidade a invadiu, quase dolorosa. Não lembrava mais como era ser feliz, até esse instante.
(...) Se viu refletida nos olhos de Lancelot, e soube que era linda, que ele a desejava, mas que seu amor e respeito por ela eram tão grandes que se obrigava a impor limites.

(...) Deitaram juntos na grama, sem se tocar, cobertos com o manto da capa dele. Morgana dormiu sem sonhar, ciente que tinha as mãos ainda enlaçadas às dele. Ao acordar, sentou para decorar cada linha do rosto dele, com feroz ternura.
(...) Ele acariciou a bochecha dela, e ela o abraçou com todas suas forças, ouvindo seu coração no peito morno. Ele levantou o queixo dela, e seus lábios se encontraram.
- Se você não fosse consagrada à Deusa...- ele murmurou.
- Se não fosse...- respondeu ela.
- Fica perto, deixa te abraçar. Jurei não... pecar.
Ela fechou os olhos, não importava mais. Iam juntar seus lábios mais uma vez, mas Lancelot ficou tenso, como se ouvisse algo imperceptível. Ela se afastou.

- O que é isso? - perguntou ele.
- Não ouço nada - respondeu, tentando ouvir por cima do vento, das aves e do som da água. O som chegou novamente, como um soluço.
- Alguém chora, parece uma criança - disse ele, e se levantou, correndo.
- Pra lá!
(...) Na água, encontraram uma jovem com água até o tornozelo.
- De fato ela está aqui, mas não é uma sacerdotisa - disse Morgana.
Sua beleza era deslumbrante. Branca e dourada, a pele como de marfim, os olhos de um claríssimo azul, o cabelo como ouro vivo. Segurava o vestido tentando não molhá-lo, e chorava desconsolada, estranhamente sem desfigurar o rosto, ficando ainda mais bela.
- O que você faz aqui? - Perguntou Morgana. - Se perdeu por acaso?
A jovem olhou fixamente: - Achei que ninguém pudesse me escutar. Que lugar é este? A terra se mexeu e me encontrei aqui, nas águas. Nunca estive aqui, embora conheça o convento há quase um ano.- E fez o sinal da cruz.
Subitamente Morgana percebeu o ocorrido. O véu tinha se debilitado, como ocorria em pontos de poder muito concentrado; a jovem devia ser poderosa, já que percebia através do véu. Podia ocorrer uma visão fugaz, mas desta vez tinha realmente atravessado a fronteira do outro mundo. Lancelot se apressou em carregar a jovem até terra firme, e a jovem não chorou mais. Olhou para Lancelot com olhos de admiração. E olhou para Morgana.
-Vocè é do povo das fadas? Ia fazer o sinal da cruz mais uma vez, mas parou: Não, você não é um demônio, ou teria sumido com o sinal da cruz. Mas é pequena e feia, como o povo das fadas.
Lancelot falou com firmeza: - Não, não somos demônios. E acho que podemos achar o caminho até esse teu convento. O coração de Morgana virou do avesso ao ver que ele olhava para a desconhecida exatamente do mesmo jeito que ela mesma tinha olhado para ele há apenas uns momentos; com amor e desejo, quase com veneração. Se enxergou com os olhos de Lancelot e os da estranha donzela dourada: pequena, morena, com um signo bárbaro gravado na testa, coberta em lama, os pés sujos, os braços nus. Pequena e feia, como o povo das Fadas. Morgana das fadas. Assim a chamavam quando ainda era pequena, provocando-a. (...)
-Qual é teu nome? - perguntou Lancelot. - Guinevere - respondeu a jovem loura.
- Que nome mais... lindo- murmurou ele. - Digno da dama que o carrega.
Morgana sentiu tanto ódio que achou que ia sumir. As cores do dia tinha sumido na bruma, no pântano. E com eles toda sua felicidade também.


(...) Chegam ao convento... lará lará... (...)

Morgana fechou a bruma, e com ela Lancelot não viu mais o rosto dela, já na segurança do convento.
- Como você fez isso, Morgana?
- Que coisa?
- Subitamente você parecia minha mãe. Alta, distante, quase... irreal. Como de outro mundo. Não devia ter feito isso, assustou essa coitada criança.
Morgana mordeu sua língua com ira.
Depois respondeu, enigmática:
- Sou o que sou, primo. E apertou o passo pela trilha. Tinha frio e estava cansada, como se estivesse doente por dentro. Desejava a solidão da casa das donzelas. Lancelot parecia ter ficado para trás, mas não se importou. Que se virasse para encontrar o caminho, pensou ela.

A todo isto, eu digo: Hein?

Ciúme é o pior sentimento que o ser humano pode sentir. É o motor do ódio, do rancor, e na maioria dos casos o motivo dos piores desentendimentos entre as pessoas. Por isso, lembrem-se crianças: Quando vocês ficam com ciúmes, ficam parecendo pequenos e feios, como o povo das fadas. Ou como o próprio Lancelot falou, "você está parecendo sua mãe".

E para quem tiver coragem, o longíssimo episódio que comentei agora no livro dura o total de 3 páginas. Eu disse que o livro é lento...

Até a semana que vem!