Vulgo Vulgato

Este ano, a Páscoa caiu em Março. Há todo um cálculo usado para chegar nessa data, mas isso não vem ao ponto, afinal meu blog não é desse assunto... Mas como tantas vezes, tenho mais um desafio de encaixar a lenda arturiana em uma data especial.
A Páscoa define um outro evento muitas vezes usado nas lendas arturianas como começo do conto: Pentecostes. Muitas histórias começam com "no dia de Pentecostes...", ou mesmo "No dia da Páscoa" como por exemplo a de Eric e Enide, que já contei neste blog.
Pentecostes é uma data puramente religiosa (embora teve uma festa da colheita pagã associada a pentecostes), então isso me faz trazer à tona um assunto que já explorei um par de vezes, a tal da influência da Igreja na lenda arturiana. O bom disso que me fez aprofundar em um assunto que nunca estudei apropriadamente, e ontem dediquei um tempinho a fazé-lo. Eu poderia simplesmente ter falado do Graal, mas como é um assunto que já explorei, dessa vez vou levá-los mais fundo na lenda. Hoje vou falar do terceiro ciclo de histórias, escrito nos começos do século 13, conhecido como ciclo Lancelot-Graal, ou também como Ciclo Vulgato.

In Nomine Patris, et Fili (versão dois)

O Ciclo Vulgato é, resumidamente, uma versão "revisitada" da lenda arturiana. Ela mistura as histórias mais antigas com fatos do Antigo Testamento, dando significado bíblico a todos os fatos e destinos dos personagens. Incorpora o valor religioso, a busca espiritual do Graal, o senso de pecado, a culpa, o remorso, só coisa boa. Na verdade, apenas reflete o pensamento da época...

A Corte do Graal aparece para Perceval no Castelo do Rei Pelles - Ilustração que acompanha os textos de Chrétien de Troyes.

O grande e mais maravilhoso fato atingido pelo Ciclo Vulgato foi compilar todas as histórias, dando nexo e sentido linear aos fatos, perpetuando a lenda. Isso sim é mérito, ao ponto que serviu de base para todos os trabalhos futuros, entre eles o genial Morte d'Arthur de Thomas Malory, séculos depois (que formou a lenda mais conhecida nos dias de hoje).

Arte na escrita

O ciclo vulgato é uma verdadeira obra prima da literatura medieval. Cinco diferentes trilhas lendárias se estendem em 8 grandes volumes, outorgando assim pela primeira vez na história a lenda arturiana completa do jeito que é conhecida hoje. Acredita-se que a linha principal ou rascunho do ciclo seja obra idealizada de uma única pessoa, mas que vários autores participaram escrevendo as obras.

Apresentadas em prosa, as histórias do Vulgato fazem do amor entre Lancelot e Guinevere o elemento crucial da queda do reino de Arthur e sua távola redonda. Também foi explorada a idéia do conflito entre a vida privada e pública da realeza.

  • A primeira trilha é um trabalho de Robert de Boron; a lenda do Santo Graal, que finaliza com a guarda do Graal no castelo de Cobernic, nas mãos do Rei Pelles, avô de Lancelot.
  • Mais um trabalho do Robert, a segunda trilha foca em Merlin; seus esforços a favor da causa de Uther, o nascimento de Arthur, suas intervenções para favorecer Arthur nos seus primeiros anos de reinado... Mas Merlin acaba aprisionado por Nimue, quem amava profundamente e a quem se entregou. A partir desse momento, Arthur teve que continuar sem a ajuda do seu conselheiro favorito.
  • A terceira trilha, ou prosa de Lancelot, conta inúmeras aventuras; não apenas sobre Lancelot ou mesmo a corte arturiana. Eventos que de certa forma prevêem o futuro são colocados repetidamente ao longo das histórias, especialmente quando Lancelot foi nomeado cavaleiro. Uma série de eventos faz com que Arthur não estenda a espada a Lancelot para fazê-lo cavaleiro, e Guinevere acaba fazendo-o, criando um vínculo feudal formal entre eles, que logo depois será reforçado pelo vínculo do amor. A história então continua com Chrétien, contando o seqüestro de Guinevere e seu resgate (obviamente) pelas mãos de Lancelot, após o qual é chamado para todo tipo de aventura cavalheiresca. Durante estas aventuras, Lancelot foi seduzido pela filha do Rei Pelles, guardião do Graal. O resultado desse encontro foi o nascimento de Galahad. Maravilhas prevêem o futuro, anunciando que Lancelot não é mais o maior cavaleiro do mundo. O motivo? Sua falta de castidade. E por que Galahad é o predestinado? Pela sua linhagem e pureza.
  • A quarta trilha é sobre a busca do Santo Graal. Esta história mostra que a távola redonda e o Graal estão intrinsecamente ligados, e que a conquista na busca do Graal será a o grande e principal motivo do reinado de Arthur. O Graal aparece para a corte de Arthur no Pentecostes, no mesmo dia em que Galahad chega à corte e passa no teste do assento perigoso, o assento da távola redonda que somente poderia ser ocupado por quem fosse digno de sentar nele, e capaz de levar a busca do Graal até o fim com sucesso.
A Távola Redonda e o Santo Graal, Ilustração do manuscrito Lancelot-Graal de Michel Gantelet, finalizado em 1470.

A Busca Vulgata, diferentemente dos contos de Robert e Chrétien, foca bem mais os fracassos de Lancelot e Gawain do que no sucesso de Galahad, Perceval e Bors. Os cavaleiros mundanos (onde Lancelot e Gawain são os maiores expoentes). mestres-de-armas, cavaleirismo e amor cortés não mais conseguem manter a caráter icônico da irmandade Arturiana. Agora a honra pertence aos cavaleiros espirituais, aqueles que podem levar a busca do Graal ao fim. Os cavaleiros são medidos agora pelo seu grau de santidade. Nas mãos dos escritores Vulgatos, a busca do Graal é inteiramente espiritual na sua natureza. Galahad e Perceval passam praticamente para outro plano de existência, enquanto sobra para Bors, que viu o Graal por si mesmo, levar a mensagem de sucesso na busca até a corte do Rei Arthur.

  • A última trilha, a morte do Rei Arthur, é uma trilha de decadência espiritual. Ecos de pouca importancia no plano mundano, associados com a valorização do plano espiritual são tipificados em Lancelot, que embora consiga uma visão parcial do Graal, sofre no fim pela sua falência no lado espiritual. É ele quem corta os laços com a távola redonda resgatando Guinevere da morte certa e quebra a linha de comando de Arthur para vantagem de Mordred. Histórias prévias já contavam este tipo de acontecimentos començando por Geoffrey de Monmouth, mas os autores da Vulgata foram os primeiros em colocar Mordred como filho de ilegítimo de Arthur. Portanto, Arthur é também condenado pelo seu pecado. Depois de uma grande batalha, Arthur é enterrado na capela Noire; os cavaleiros chegam até seu caixão para se reunir, e procurar arrependimento penitente. Particularmente para Lancelot, é tarde demais. Ele morre espiritualmente vazio, e com isso o ciclo conclui.

Lancelot é o evidente protagonista do ciclo Vulgato, mas Arthur tem a função de dar continuidade às histórias. A távola redonda é pela primeira vez um instrumento para combater o mal e corrigir erros. Os cavaleiros da távola redonda tem a missão de fazer o bem. Esta missão dá à távola redonda um propósito fundamental, um elemento até então não encontrado nas lendas arturianas. A história da queda de Arthur, uma figura de grandiosidade épica, ganha foco: os cavaleiros da távola redonda procurando o Santo Graal. Colocados contra o pano de uma busca espiritual, os pecados de Arthur, Guinevere, Lancelot e Mordred acabam tirando o destaque deles, enquanto a bondade de Galahad e Perceval prevalecem brilhando acima do resto.

Ao mesmo tempo, estes personagens são vividamente humanos. São passionais, vivendo romances incontroláveis, erram, sonham, eles respiram os ideais dos tempos dos autores Vulgatos.

Até a semana que vem!!







3 comentários:

pedrita disse...

bacana. passou um filme na sessão da tarde com a whoopie e lembrei de vc. não vi, mas achei engraçado o nome e alguns trechos. me lembrou os filmes do didi hehe. beijos, pedrita

pedrita disse...

wally, meu amigo falou de um livro que deverá gostar http://paisagensdacritica.wordpress.com/ - Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum

Renata disse...

Gostei do post, continuou nossa conversa rápida da sexta feira sobre qual é a lenda "verdadeira" de Arthur - quer dizer, qual é a origem da que conhecemos hoje. Bom saber que alguém juntou todos os pedaços nesta história, e o envolvimento da religião é claramente influência dos costumes da época. Galahad é filho de Lancelot em outras versões também? Não lembro disso, será que a memória anda tão mal assim?
Beijos!