O (Santo?) Graal

Muito bem, muito bem. Fim de semana, todo mundo expectante para ver o que vou falar do Graal, embora a Pedrita tenha roubado parte do meu post, hehe..

Era una vez, hace mucho, mucho tiempo...

Como todos os contos antigos que vale a pena lembrar, vou contar primeiro a versão arturiana da lenda do graal, segundo Chretien de Troyes:

O Santo Graal foi a taça onde Jesus Cristo bebeu durante a última ceia, momento sacro e decisivo como poucos nos Santos Evangelhos. Esta taça foi entregue ao seu sobrinho-neto, Jose de Arimateia, que a usou para recolher o sangue e o suor de Jesus durante a Crucifixão. Aparentemente, Jose de Arimateia foi preso logo depois da Crucifixão, e deixado para morrer em um túmulo semelhante ao usado para os restos mortais de Jesus (basicamente, uma caverna com uma rocha na entrada). Ele foi deixado para morrer, mas o poder do Santo Graal deu sustento para ele durante anos.
Em algum momento, Jose de Arimateia viajou para a Bretanha com sua familia e alguns seguidores, para se assentar em Ynis Witrin (hoje Glastonbury). Mas o Graal não ficou com ele, foi levado para Cobernic, onde ficou sob resguardo dos Reis do Graal em um castelo bem protegido. Os Reis do Graal não seriam outros mais do que os descendentes na linhagem de Jose de Arimateia, filhos da sua filha Anna e o marido dela, Brons.
Siglos depois, a localização do grandioso castelo de Cobernic perdeu-se no tempo.
Na coorte do rei Artur, foi profetizado que o cavaleiro de coração mais puro seria um descendente da linhagem de Jose de Arimateia, acharia o Graal, e este cavaleiro seria o único digno de sentar na Cadeira Perigosa. Piadas à parte, a tal da Cadeira Perigosa era uma cadeira da Távola Redonda que abria um buraco onde sumiam em chamas os indignos que ousassem sentar nela.
Com a aparição de Galahad filho de Lancelot no trono e uma curta porém marcante visão do Graal, começa o que seria a maior empreitada dos cavaleiros da Távola Redonda. Após anos de busca, que teve finalmente o primeiro encontro com o Graal foi Parsifal, (aka Perceval, aka Peredyr), nas terras do Rei Pescador. A história de Parsifal é um livro por si só, mas o que interessa é que ele falhou em perguntar pelo Graal para o Rei. Sua falta de iniciativa fez dele indigno de encontrar o Graal.
Outro cavaleiro que chegou muito perto de encontrar o Graal foi (quem mais) o Lancelot, mas ele foi proibido de entrar no castelo, pois tinha cometido o pecado do adultério (crianças, eis a lição de hoje: todo mundo fica sabendo MESMO, até os que moram num castelo perdido há siglos).
Finalmente, Galahad teve seu encontro com o Graal. Ele era o cavaleiro perfeito, da linhagem de Jose de Arimateia. Este posto era para ser do Lancelot, mas ele pecou... enquanto o filho se manteve puro, e olha que tentação não faltou.
Finalmente, Galahad ficou frente a frente do Graal, e teve a visão do rosto de Deus, visão que nem Moisés teve quando escreveu os Dez Mandamentos, que viu apenas uma rocha ardendo.
Galahad foi recebido diretamente nos Céus, passando para a Vida Eterna do lado do Salvador sem passar pela morte.

In nomine Patris, et fillii, et Spiritus Sancti...

Mais uma vez, essa maravilhosa historia passada de povo para povo pelos bardos, tem o dedo religioso até a médula, fazendo de uma historia pagã uma historia ainda maior do que a Bíblia. Afinal, quem não sabia ler ia criticar de que forma? Quem tinha a coragem de ser chamado de herege por seguir as tradições druidas?
Vou contar outra historinha, e vejam as semelhanças na busca de uma relíquia sagrada com formato de vaso, que possuía poderes mágicos. Essa menção já aparece no conto do Mabinogion sobre Culhwch e Olwen, mas a história provavelmente melhor conhecida seja a de Preiddeu Annwfn, chamada de Espólios do Outro Mundo, e recontada por Taliesin.
Arthur e seus guerreiros navegaram ao Outro Mundo Céltico para capturar o Caldeirão de Annwfn. Como o graal, o caldeirão era capaz nutrir os necessitados, mas também era profético. Foi encontrado em Caer-Siddi (Wydyr), uma ilha onde ficava um castelo de vidro, guardado por nove ninfas sagradas. Mas os perigos da busca foram demais para os homens de Arthur. A missão foi abandonada, e somente sete dos nove que partiram voltaram para casa.

A Era do Bronze

Camelot não se alimenta apenas de lendas medievais, embora a visão que temos dela seja exatamente essa. A lenda do graal, as espadas, os eventos mágicos, praticamente todos eles são releituras de antigas lendas celtas. As historias celtas sempre estiveram acompanhadas de recipientes mágicos. Os caldeirões celtas eram usados em festividades desde a Era do Bronze. Muitas pesquisas arqueológicas encontraram estes tipos de caldeirões, como o encontrado em Jutland, na Dinamarca, chamado de caldeirão de Gundestrup. Este caldeirão estava ricamente decorado com deidades celtas, e tinha uma capacidade aproximada de uns 120 litros. Isto revelou a importancia dos caldeirões nos cultos religiosos, e seus reflexos nas lendas celtas e posteriormente na mitologia arturiana.
Outro elemento citado com freqüência é a Cornucópia, o Chifre da Abundancia. Um elemento mítico, do qual surgiam iguarias sem fim. Mais uma vez, trata-se de um recipiente do qual surgem alimentos, como nas histórias anteriores. A Cornucópia é figura comum na mitologia greco-romana, normalmente carregada nas mãos de ninfas ou semi-deusas.

No fim, já vimos visões do Graal como uma taça, um caldeirão, em linhas gerais um recipiente sagrado sempre envolvido em buscas.

Tem outras visões ainda mais imaginativas, como a proposta no livro "O código Da Vinci", onde o cálice sagrado seria Maria Madalena . O filme baseado no livro mostra uma cena muito interessante de superposição de imagens na pintura da última ceia do Da Vinci. Gostei muito do Sir Ian McKellen (sim, ele foi nomeado cavaleiro pela rainha da Inglaterra) no papel de historiador. Um dos grandes atores pelos que sinto admiração em praticamente todos seus trabalhos.

A Busca Moderna

Vários lugares são cogitados como o descanso do Santo Graal, cada um com seus méritos. Embora a Igreja Católica não aceite a imagem do Graal como relíquia sagrada, existe uma igreja em Valencia, na Espanha, chamada Capilla del Santo Cálice. Esta capela guarda em seu interior uma taça românica dourada, que afirmam ser a taça onde Jesus bebeu durante a última ceia. Esta peça passou muito perto de ser extraviada nas mãos dos nazistas durante a segunda guerra, na procura de itens de arte e antigüidades.
O contraste de uma peça de ouro ricamente decorada com a prática de humildade e desapego aos bens materiais praticada por Jesus torna simplesmente inacreditável a lenda, mas que a taça é linda, ah, isso é mesmo. Gostaria de visitar para ver de perto.


No cinema, tem algumas referências também; uma das mais divertidas ou entretidas de assistir é a do Indiana Jones. O encontro do caçador de tesouros com o Graal é bem marcante, e muito acertado com o tom do filme, e mais uma vez aparece como doador de dádivas. No filme, Indy tem que reconhecer o verdadeiro cálice entre outras cópias dele, cada taça com suas características bem diferentes uma da outra. Somente os dignos (como Galahad) reconheceriam o verdadeiro cálice.

Chega assim ao fim este post sobre o Cálice Sagrado, encerrando também a seqüência de posts sobre os artefatos mágicos na lenda arturiana. Tenho alguns assuntos em mente para a semana que vem, tenho que decidir ainda sobre qual deles vou falar. Minha única certeza para a semana que vem é que estarei bem ocupado pelo lado profissional, portanto acredito que a escolha estará mais condicionada ao tempo disponível do que à preferência por um assunto em particular.
Por outro lado, estou pensando em um post monstruoso, que pretendo escrever em partes e publicar como um só; esse vai precisar de uma pesquisa mais estruturada, e provavelmente leve alguns meses para concluí-lo.

No meio da semana divulgo o assunto para o finde. Obrigado pela leitura, e ótima semana para vocês!





7 comentários:

pedrita disse...

ebaaaaa!!!!! ahahah, roubei não, pq o filme não fala quase nada disso aqui. olha só, nunca ouvi falar em Chretien de Troyes. por isso que gostei mais de indiana jones do que código da vinci. indiana jones quer divertir. código da vinci nos quer enganar pra ganhar dinheiro com uma susposta visão mirabolante. o que mais me fascina no santo graal é essa migração entre sagrado e profano, mito e realidade, religião e fantasia. é um artefato que a igreja aceita como sagrado, mas ao mesmo tempo é envolto em lendas nada católicas. essa mistura sempre me fascinou. um objeto que serve a propósitos sagrados e a lendas. gosto também das váris versões sobre o mesmo fato. na religião, no livro as brumas de avalon, em excalibur, indiana jones. é um objeto de desejo para poder e sucesso, ser digno ou não, que levou tantos guerreiros na sua procura. ótimo texto. adorei as imagens. e que trabalhão hein?

Andrea disse...

Eu também prefiro a abordagem do Indiana. Ea do MOnthty Python...rs

Renata disse...

Uau, todas essas histórias do Graal deram um nó na minha cabeça. Eu já imaginava que ele tem uma história diferente em cada lenda, mas colocar todas no mesmo lugar mostra como existem coisas e coisas a respeito desse objeto... Muito legal, eu adoraria saber mais ainda sobre ele =)

Renata disse...

E, ah, vi que você comentou sobre o meu conto da patinadora, acabei esquecendo de agradecer o comentário!! Que bom que gostou =)

Elza disse...

Olá!!
Estou passando por aqui para dar meus parabéns
pela sua indicação, ao prêmio blog 5 estrelas!
Seu blog é muito original, parabéns 2x!
rsrs...
=]

Wally disse...

@ Pedrita: De fato, o cruzamento entre o profano e divino acontece constantemente na historia, não só do graal, como com outros artefatos como a lança de São Longuinho (Longines Spear para os intimos). Também chamada da Lança do Destino, é supostamente a usada para abrir o flanco de Cristo na crucifixão. No séculos 17 e 18, teve uma febre por objetos com origem sagrada; na sede do Papado na França era guardado como tesouro a palha do que seria o presépio de Jesus, e a famosa coroa de espinhos.
@ Andrea: Meu, Monty Phyton é sensacional. Ainda quero meu coelho de pelucia da caverna mal assombrada!
@ Renata: Sim, requer um esforço consideravel estudar e separar cada historia, mas como você viu em casa, material de pesquisa não falta. E afinal, tem que gostar mesmo da coisa para ler tanto e levar a frente um blog que requer um esforço maior do que superar apenas a preguiça e a busca de um assunto.. Tenho que ler os outros contos para poder comentar, na medida que puder vou lendo e opino!
@ Elza: Obrigado! Não esperava nenhuma indicação, afinal meu blog existe faz pouco tempo. Uma coisa que não conta na idade do blog é que venho ensaiando escrever sobre as lendas já faz uns dois anos, mas comecei só agora. Obrigado mais uma vez, afinal ganhei parabéns 2x!

Eru disse...

Meus parabéns pela pesquisa, rapaz! Um bom trabalho.

O maior problema em lidar com o legendarium arthuriano é o excesso de fontes e a falta de evidências que apontem para algo mais conclusivo.

Inclusive muitos dos personagens que hoje conhecemos através da lenda do rei Arthur nasceram independentes deste, como Percival e Galahad, assim com a própria lenda do Graal.