Glatisant

And his name is Sir Palomides, the good knight, that for the most part he followeth the beast Glatisant.
(E seu nome é Sir Palomides, o bom cavaleiro, que a maior parte do tempo seguiu a besta Glatisant.)

Le Morte D'Arthur, Livro X, Capítulo LXIII


Glatisant, a lenda dentro da lenda


Há duas semanas falei dos bloquinhos de montar do Rei Arthur, onde encontrei o assunto da semana passada, Sir Lamorak. Lembram que o nome do brinquedo era "Lamorak e a Besta Assassina"? Então, essa tal besta assassina faz parte do bestiário clássico da lenda arturiana, muito conhecida e com direito a nome e tudo: Glatisant.
O nome vem do barulho dos gritos da besta, uma coisa parecida com 30 cachorros tumultuando quando vão caçar. Como isso não é muito comum nestes dias, especialmente entre os leitores do blog, peço para lembrarem qualquer pet-shop, um passeador de cachorros ou mesmo as madames com 5 peludinhos passeando na rua, e começam a latir desgovernadamente. Multipliquem isso por 6, e terão uma idéia da definição do Glatisant.

A Busca

A besta Glatisant faz parte de uma história secundária do lendário arturiano. O Rei Pellinore é o personagem principal desta história; ele é introduzido nos contos como um rei que nasceu com um propósito, com uma busca (quest) já designada. Normalmente, as missões dos cavaleiros eram circunstanciais, eram demandas que surgiam para atender uma necessidade. Já o Rei Pellinore não precisou perambular pelo mundo para achar sua demanda, sua busca: ela estava pronta assim que ele nasceu.
A família dos Pellinores, desde o pai do pai do Pellinore arturiano, tem por missão capturar viva ou morta a besta Glatisant. Com esse contexto, os mais diversos cavaleiros dão de cara com o Rei Pellinore, geralmente nos bosques encantados, no meio de outras missões pessoais. A lenda é bem recorrente no relacionado a Pellinore; é como conversar com pessoas que você não conhece muito, e quer forçar conversa, ou apenas ser gentil. É como conversar com os vizinhos de prédio no elevador:

- E aí seu Pellinore, tudo bem com o senhor?
- Ah sim, tudo ótimo, e você?
- Na boa, indo pra labuta... já pegou a Glatisant?
- Não, tô atrás dela ainda...
- Ah, tá... boa sorte então...
- Valeu, prá você também.
- ...

Nós vemos o Pellinore envelhecer no livro, e nada de catar a tal da besta assassina dele. Ainda assim, volta e meia algum cavaleiro que estava dando sopa sem nenhuma busca particular, emendava o tempo livre ajudando o Pellinore, acompanhando-o ou mesmo assumindo a busca quando o outro estava fora de combate, seja por estar ferido, em outro país ou qualquer outra desculpa (feriado administrativo, greve, etc.). Entre os cavaleiros que assumiram a busca, entra o Palomides, participante de um triângulo amoroso diferente: Tristão, Isolda e Palomides. É, todo mundo estava a fim da Beau Isolde.
Outro que teve sua fase de caçador da Glatisant foi o Lamorak, por causa de sua amizade com Palomides; eles enxergaram um no outro cavaleiros de grande honra e valor, e assim viraram amigos até o fim.
Existe uma outra interpretação da busca do Pellinore, feita por T.H. White no seu "A Espada na Pedra": ele nos apresenta um Pellinore muito hilário, caricato, um personagem meio lelé das idéias após anos atrás da besta. Avoado, gente boa, ou o clássico louco bom que não faria mal a ninguém.

A Cara do Bicho


Ela foi representada de várias formas, mas vou me manter na versão mais conhecida e popular, a do Malory. Daria um trofeú digno de qualquer parede:
Cabeça e pescoço de uma grande serpente; as patas dianteiras e o torso de um leopardo; os quartos traseiros e o rabo de um leão; e as patas de um cervo. Era uma criatura muito astuta; sempre está um passo à frente dos seus perseguidores. Cada autor enxergou a besta com tamanhos diferentes, desde um pequeno bichinho arisco até uma criatura monumental e ao mesmo tempo pacata, que bebe plácidamente dos lagos no meio do bosque. Eu a imaginei bem parecida com a imagem aqui ao lado: este desenho é de H. J. Ford, feito para ilustrar o "Tales of the Round Table" de 1902.

A Origem

Existem várias versões, como sempre um par delas tentando dar um sentido religioso à existência da criatura ("é o símbolo da confusão dos homens longe de Deus!!!"), mas prefiro a mais tradicional, com todo seu sabor a lenda:

Era uma vez uma princesa, bela e formosa. Ela tinha por irmão o mais belo príncipe que o mundo conheceu; era tão belo e galante como nenhum outro. Sua beleza era tal que sua irmã sentiu desejos de mulher com seu irmão príncipe; o desejava, o queria para ela. Confessou seu íntimo desejo para seu irmão, mas a nobreza dele o impediu de aceitar a desonrosa proposta, e recusou a oferta da princesa.
Perdida no desespero, ela invocou um demônio, ao que pediu seu ardente desejo de conhecer seu irmão na intimidade. O demônio ouviu atentamente, e com toda sua maldade, colocou apenas uma condição: a princesa devia se deitar com o demônio primeiro, e somente depois poderia ter seu príncipe irmão na cama.
O feitiço se virou contra a princesa, e depois de se deitar com o demônio, todo o amor que tinha pelo seu irmão virou ódio, rancor, desprezo. Ela engravidou do demônio, e no seu ódio acusou o próprio irmão de estupro. O príncipe foi condenado à morte, mas antes de morrer profetizou que da irmã nasceria uma criatura de aspecto horrível, um monstro. Assim nasce o Glatisant, que foge para a floresta. No fim, a princesa confessa sua armação, e é condenada a morte também.

É, a história não é para criança dormir, mas é bem a cara das histórias medievais. As primeiras menções da criatura aparecem no Perlezvaus, um romance de século 13, e posteriormente no Merlin, mas quem resgatou a imagem da Glatisant foi Malory, e por isso fiz questão de trazer para vocês a versão dele.

Até a semana que vem!

6 comentários:

Marion disse...

Estou até agora assustada com a história da besta. Que princesa é esta??? Nunca vi uma princesa tão tarada e malvada assim, esta definitivamente nunca fará parte das princesas da Disney.

Beijos. :)

Renata disse...

Gostei da origem do bicho, uma lenda pra lá de ousada, não se vê essas coisas por aí (daqui a pouco o "politicamente correto" reedita o livro e modifica o texto...)

Patry, a Disney é capaz de transformar qualquer maníaco do parque num longa metragem fofucho, eu não duvidaria desse poder ;-)

Beijos!

Marion disse...

Rê, mas como transformar uma princesa tarada pelo irmão? Risos Realmente eu fiquei impressionada com a princesa deste post.

E realmente uma história destas no mundo de hoje não ia rolar... não deixariam, é muito incorreta!

Beijos

Wally disse...

Digo eu, vcs vem aqui para discutir de princesas? Hein??

Renata disse...

Temos culpa se essa princesa é do tipo que vira assunto? hehe :)

Marion disse...

Amor, dá próxima vez escolha uma princesa mais normalzinha... aí a gente nem vai reparar na fulana! ehehe

Beijos