Homem de Ferro


- Gentil anfitrião, se não vos aborrece e se o sabeis, dizei-me: quem é estes cavaleiro com armas azul e ouro que ora passou por aqui? Junto dele cavalgava uma donzela encantadora e adiante um anão corcunda.
Responde o anfitrião:
- É quem terá o gavião, pois nenhum cavaleiro ousará opor-se. Não, não haverá rotos nem rasgados. Ele o conseguiu dois anos seguidos, sem ter encontrado desafiante. Se também desta vez obtiver o pássaro, o terá ganho para sempre. Dele será o pássaro, doravante todo ano, sem contenda nem peleja.
Diz Eric vivamente:
- Esse cavaleiro, não gosto dele! Sabei que se eu tivesse armas lhe disputaria o gavião! Gentil anfitrião, rogo que me ajudeis a aparelhar-me de armas, velhas ou novas, feias ou belas, pouco importa.
O anfitrião responde:
- Tenho boas e belas armas que de bom grado vos emprestarei. Lá dentro está a loriga de malha tripla que foi escolhida entre quinhentas, e as perneiras brilhantes e leves. O elmo está polido, luzente, e o escudo tinindo de tão novo. Cavalo, espada e lança vos emprestarei também, podeis ter certeza!
- Agradeço-vos, caro anfitrião, mas não desejo melhor espada além da que trouxe, nem outro cavalo além do meu. Dele me valerei bem. Se emprestardes o restante, será bondade mui grande.

O texto acima é do conto de Eric e Enide, texto muito rico que me levou 1, 2, 3 posts para completar. Deu um certo trabalhinho localizar esse texto específico; queria um texto arturiano que menciona-se vários componentes de uma armadura medieval, e embora este não seja exatamente o que buscava, já dá pé suficiente para o assunto de hoje.

Cuecão de lata

Quando disse trabalhinho, na verdade foi um trabalhão de pesquisa. Passei um par de horas fuçando o "Le Morte d'Arthur" do Thomas Malory no original, no seu inglês agradabilíssimo dos idos anos 1400. Mais exatamente, o livro foi concluído durante o quinto ano do reinado de Edward IV, portanto entre 1469 e 1470. Este livro somente viu a luz após sua paginação feita por Caxton, mais ou menos em 1485. Ele separou todos os textos em dois volumes, com 10 capítulos cada um.
Toda essa busca foi procurando uma passagem onde mencionassem as diferentes peças que compõem uma armadura. Adivinhem o que aconteceu? Não achei.
Talvez a conclusão mais importante e inusitada da busca da santa passagem seja o fato de chegar na conclusão que Malory não era conhecedor de armas. Em todos os confrontos, quando algum cavaleiro está se aparelhando para a batalha ou simplesmente para justar, o texto diz que o cavaleiro vestiu seu "armour", ou armadura. No máximo, aparece a expressão "harness", cujo equivalente seria aparelhagem. Nenhuma menção aparece às peças que compõem uma armadura, salvando pelo obvio, como o "helm" (capacete), e o "hauberk", que não é outra coisa que a camisa de cota de malha, que protege contra o corte de uma espada ao não permitir a passagem do aço entre seus elos. Nos contos de Malory os hauberks eram de péssima qualidade, ou os espadachins habilidosos demais, já que sempre cedia à força do corte.
As armas não recebem nenhuma categorização; uma espada é sempre uma "sword", nunca aparece qualquer outra expressão como sinônimo ou tipo de espada. Sim, há muitos tipos de espada, categorizadas pelo seu gume, peso, tamanho, etc, etc.
Resumindo: não achei o que buscava.
Então bateu a tecla; estava buscando no lugar errado. Precisava revisar outros livros, outros textos mais antigos, onde de fato as pessoas tinham a necessidade de usar armadura. Essa experiência de vida com certeza seria refletida nos textos. Portanto, mais uma vez o Chrétien salvou a lavoura, com o texto do Eric e Enide que abre este post.
Se não me engano, o texto original antigo do "Le Morte d'Arthur" que não pertence ao Malory mas cuja autoria é anônima, tem várias passagens onde Lancelot veste pacientemente cada peça da sua armadura, mas não achei até agora, e pela densidade do texto fica difícil caçar no livro sem um CTRL+F que ajude. Com certeza vou achar quando estiver procurando por outra coisa, como sempre acontece.

Tem tamanho M?

Já pensaram na dificuldade de vestir uma armadura? De se mexer dentro dela? Na sensação de claustrofobia, preso dentro de tanta lata? De até que ponto um cavaleiro estaria indefeso dentro dela? Por que então as pessoas usavam armadura?

A resposta é simples: pelo mesmo motivo que são usados tanques nos dias atuais. O cavaleiro em armadura era uma arma formidável, capaz de enfrentar vários soldados em pé, se deslocar rapidamente, interceptar, avistar, formar barreiras. Os cavaleiros, como falei faz uns 6 meses, eram a elite de qualquer exercito, capazes de desequilibrar uma batalha.

A imagem acima, tirada do site medieval lifestyle, mostra as peças que compõem uma armadura clássica de finais de 1500/começos de 1600 (séc. XVI/XVII respectivamente). O que não conta é o que precisava embaixo dela:
A primeira camada em contato com a pele era sempre uma camisa de tecido, que mantinha o corpo quente mesmo no nevado inverno da europa. Em cima, outra camisa, desta vez de couro, que amaciava o impacto dos golpes e protegia contra farpas que nenhuma outra peça de roupa poderia segurar. A seguir, a cota de malha, que com a passagem do tempo ganhou e perdeu mangas para comportar funções como a dos arqueiros, que precisavam dos braços livres de qualquer peso para mirar apropriadamente. Finalmente, aqueles que vestiam armaduras recebiam a ajuda dos valetes para afivelar cada peça no seu lugar. É bom não bater vontade de ir no banheiro depois disso tudo.

Ficaram curiosos? Querem experimentar?

Quem estiver passando uns dias em Ontario a trabalho ou passeio poderá passar pelo AEMMA, ou "Academy of European Medieval Martial Arts". Esta fundação existe com o único objetivo de manter vivas as tradições de batalha medieval, incluindo regras especificamente escritas para a luta "mano-a-mano". Sim, os caras quebram o pau mesmo. Por motivos de segurança, eles só permitem armaduras de fins do séc. XIV até começos do séc. XV, e até por defender um teor histórico. Se você for participar, esqueça de chegar com seu capacete pontudo do séc. XI, não vai rolar mesmo que sua armadura seja apropriada.

No site da AEMMA tem uma referência a um livro de 1954, chamado "A Book of Armour", de Patrick Nicolle. Eles tentaram conseguir os direitos para publicar, mas nada de achar a editora ou o autor do livro, ou mesmo quem tiver os direitos sobre ele. Por esse motivo, colocaram o texto na íntegra nomeando o autor para evitar problemas, e no mesmo intuito eu catei descaradamente do site deles para alegria geral dos meus leitores.

1320 - Nessa época entraram muitas placas metálicas. Nosso modelo à esquerda representa um cavaleiro do rei Edward II; reparem nas peças circulares nos cotovelos, para proteção extra. Em 1325 a armadura mudou bastante; o capacete pontudo ainda valia, mas entrou o babador de cota de malha, e as mangas do hauberk (a tal camisa de cota de malha) ficaram largas, para poder colocar as luvas, agora inteiramente de placas metálicas.






1345 - Eis um bom exemplo da armadura usada na batalha de Crecy (França / Inglaterra). O capacete tinha um visor móvel, com seu final estendido e curvo para proteger o pescoço. O destaque da armadura é que era montada em cima de roupa de couro, rebitada por cima ou por baixo do couro mas nunca rebitadas entre elas. Aliás, alguém reparou que estes capacetes defendiam também as bochechas?








1419 - Bem-vindos à armadura completa, o tal de full plate armour. Nela o saiote de couro da versão anterior foi substituído por uma peça articulada; o capacete protege agora o rosto inteiro, e o pescoço como uma peça única.










É, os tempos evoluem... não percam o filme do Iron Man, está demais! E fiquem até o final do final do final das letrinhas que passam no final. Tem cena extra!!

2 comentários:

Pedrita disse...

olha só, eu tinha comentado com a marion que o merten falou do filme no blog dele http://blog.estadao.com.br/blog/merten/?title=iron_man&more=1&c=1&tb=1&pb=1

eu tb fico com aflição sempre que vejo nos filmes essas roupas. isso pq nos filmes a atual tecnologia adapta melhor essas armaduras do que em 1400. parabéns pela pesquisa. beijos, pedrita

Renata disse...

Interessante o post! Não imaginei que fosse tão difícil achar descrições de armaduras por aí...
Eu adoro armaduras, acho imponentes. Mas quando vejo uma de perto (essas réplicas que vendem por aí, não sei até que ponto são fiéis, mas enfim) fico imaginando como deve ser incômodo usar uma. Tenho curiosidade de experimentar um dia, acho que não sairia do lugar depois de vestir, hehehe!
Beijos!