Crônicas Saxônicas e Fé

Então, como foi a páscoa de vocês? Curtiram o feriado, comeram chocolate?

Eu tive uma viagem na semana, estive em BH a trabalho, e claro que levei um livro comigo. Meu companheiro da vez foi o livro " Os Senhores do Norte", terceiro volume dos quatro que compõem o conjunto "Crônicas Saxônicas" do Bernard Cornwell.



Este livro nos conta a história de Alfredo o Grande, o rei que unificou a Inglaterra por volta do ano 880 d.C., desde a ótica de Uthred, um jovem saxão levado pelos dinamarqueses quando ainda era criança, e que mais tarde retornaria ao reino para participar das batalhas decisivas na reconquista da Inglaterra.

Toda esta história está baseada e inspirada (já que há umas quantas liberdades no livro) nas verdadeiras crônicas saxônicas, provavelmente os documentos mais antigos que existam sobre o surgimento do que conhecemos como Inglaterra.

Foi feito um filme de baixo orçamento (tem até este trailer), mas sem ver o filme prefiro não opinar. Vou ver se consigo localizar o filme e ver para poder comentar sobre ele.

Uma das coisas interessantes desta coleção de livros é ver os eventos desde múltiplos ângulos. Temos a visão dos saxões, e suas disputas constantes de poder; os dinamarqueses, com seus navíos poderosos e guerreiros implacáveis almejando as ricas terras da ilha; e os bretões e irlandeses dando dor de cabeça o tempo inteiro, também guerreando para conquistar novas terras.

Neste livro há poucas menções ao Rei Arthur ou a lenda de Camelot e Excalibur, o que tem muito sentido já que era uma lenda bretã. Nestas curtas aparições, se fala de um rei que está dormindo, e voltará no dia que seu povo precisar dele, só que como o próprio Uthred disse ao ouvir essa história, "mas os bretões estão precisando dele agora"... O fato é que Arthur não apareceu, e os bretões foram novamente repelidos pelos saxões.

Esta saga de livros conseguiu mostrar duas coisas bem importantes até agora. Primeiro, como nas guerras e nas batalhas todo mundo é vítima; não tem lado bom e lado ruim, todos no fim sofrem com isso, ninguém ganha de fato. A segunda coisa, que também acho fascinante, é como com o tempo as culturas se misturam, se fundem, e os que eram inimigos aos poucos viram a mesma coisa, forçados pelo convívio.

Neste terceiro livro aparece um dinarmarquês que é nomeado rei da Nortumbria, e fica encantado com o cristianismo. Ele vê magia poderosa nas reliquias, mesmo quando as tais reliquias normalmente são partes dos cadâveres de santos antigos guardados em cofres ornamentados. Ele começa a acreditar no que ele chama de "magia cristã", o que deixa os padres com os cabelos em pé. É um tempero saboroso, essa mistura de culturas. Ver como tentamos sempre encaixar o que não conhecemos em alguma categoria que nos permita assimilar o que vemos. Nessa visão do rei dinarmaquês, os padres são bruxos do deus único dos cristãos, o Deus como eles dizem, e sem entender como funciona ele acredita que para aceitar a religião dos cristãos também precisa ser pregado em uma cruz. Finalmente, Uthred explica para ele que só vão dar um banho nele, e com isso vira cristão. Achei esses momentos de confronto religioso particularmente hilários, e o Cornwell consegue tirar momentos únicos desses encontros.

Mas teve também um momento que achei cinematográfico, digno de uma produção caprichada. Tem uma jovem que é capaz de se comunicar com os cachorros, falando de forma incomprensível, mas o fato é que ela parece ser a rainha da matilha. Esses cachorros são ferozes máquinas da morte, grandes e furiosos como lobos, e quando atacam o fazem em grupo. Não há como sobreviver a um ataque desses. Mais de 40 cachorros enormes avançando contra uma pessoa, simplesmente não há escape. Mas eis que o livro ainda guarda uma surpresa de magia cristã.

O padre Beocca, um coitado caolho e paralítico de um braço, se arrasta manco para dentro da fortaleza onde estão os cachorros. A jovem grita com fúria, aponta para o padre e fala como os cachorros. "Matem! Matem ele!". Os cachorros avançam contra o padre em uma onda de fúria. Mas param apavorados, e começam a ganhir, a 5 passos do padre. Ele anda no meio dos cachorros, como se nada, e os animais apavorados. Ele chega até a jovem, e o rosto dela se transforma. Mostra dor, e começa a ganhir também, no mesmo tom e ao mesmo tempo que seus cachorros.

O padre a cabeça da jovem pelos lados, olha firmemente para ela. A jovem fica apavorada. O padre segura os cabelos desgrenhados e puídos da moça por trás da nuca, apoia a mão na testa, e joga a cabeça dela para trás com violência. Nos olhos de todos os que testemunham a cena, parece que vai desnucar a jovem. Ele repete este movimento, e grita:

"Saiam dela! Saiam dela, seus demônios! Eu, os mando de volta para o ceú, com o poder que Cristo me dá! Vocês estão expulsos, e voltam para o ceú agora!"

A jovem cai de joelhos, e leva as mãos ao rosto. O padre se ajoelha na frente dela. Ela começa a chorar, como uma criança. E o padre simplesmente a abraça, a conforta. Os cachorros se aproximam, devagar, intrigados. O padre olha para eles, e diz: "xô, podem ir agora, vão embora", balançando a mão levemente. E os cachorros, que tinham deixado mais de 50 cadáveres estendidos no chão, agora saem correndo pelo portão, sem olhar para ninguém.

Foi assim o primeiro milagre, ou a primeira vez que leio de Cornwell uma magia inexplicável, uma manifestação divina. Nem mesmo o Merlin, com toda sua sabedoria, mostrou um evento inexplicável nos livros dele; todas as magias dele, todos os feitiços se resumiam ao fato das pessoas acreditarem nelas. Mas, se pensamos friamente, o padre acreditou que a moça estava possuída, e não tinha medo dos cachorros, tamanha sua fé. Tudo, no fim das contas, se resume a fé.

A fé move montanhas diz o ditado, agora só falta acreditar!

Bom final de semana!

2 comentários:

Renata disse...

É, um período rico em manifestações de fé, das mais simples às mais absurdas... mas se pensar bem, nada diferente do que temos hoje, acho que até o lado "comercial" da fé continua o mesmo.

Ah, o quinto livro da série sai em maio, pelo que li! Tô esperando!

Beijos!

Wally disse...

@ Rê, somos dois esperando! Na verdade, tem uma horda de gente esperando a vinda do livro. Vi uma reportagem na internet esses dias, uma entrevista ao Bernard Cornwell, que esteve na Bienal do Livro do Rio. A entrevista foi feita pelo fã clube do Cornwell no Brasil. Nessa entrevista, ele comentou que vai ter um sexto livro do Uther, onde enfrentará uma batalha gigantesca, e que continuará comportando-se mal como até agora, hehe!

Procura no Youtube por "Bernard Cornwell Bienal" para ver!

Obrigado pelo comentário!