A Pedra Artognou

Um incêndio nos promontórios de Tintagel mudou a história conhecida da arqueologia do período medieval conhecido como "a era das trevas". O fogo se espalhou pela grama, percorrendo o morro e suas formações de pedra, tirando a terra descobrindo velhas construções, mantidas a salvo da ação do clima durante séculos. Assim, apareceram construções que revelavam não apenas uma construção "provavelmente cristã", mas um importante e conhecido centro comercial, usado como ponto de intercâmbio de mercadorias entre navegantes, muito mais popular do que se imaginava.
Logicamente, isso trouxe os holofotes para Tintagel e suas construções. As escavações que começaram em 1990 foram revelando cada vez mais detalhes, novos achados, mas dessa vez quero falar de um em particular...

A-R-T.. ai meu Deus...


Imaginem o suor, o tédio de um escavador arqueológico. A escovinha na mão para não estragar nada. O cuidado meticuloso, a velocidade nula do progresso escavando com uma ferramenta tão simples. Vamos dar um nome ao nosso escavador, Kevin Brady. Vamos colocar uma data também, o 4 de Julho de 1998.
Estava Kevin escavando, pensando na sua vida, em como doíam seus joelhos por ficar abaixado. Na fome que estava dando. Na sensação do pó, o sabor de terra, misturado com o sal carregado no ar do vento do mar. E sem perceber, achou um pedacinho de pedra, com formato diferente. Começou a escavar com mais cuidado, descobrindo a pedra. O formato era bem diferente, e sua experiência lhe disse isso. Foi escavando devagar, com a paciência que vem do treino de anos.
Sim, era um achado. Aos poucos foi descobrindo mais, e percebeu o que parecia uma inscrição na pedra. Sim! Eram letras, ele sabia. Limpou um pouco mais, e foi descobrindo as letras. A... R... T... Não, não é possível... Ai meu Deus... O que foi que encontrei ?!?!?

Tirando o lado teatral, o nome, lugar e data são corretíssimos, e correspondem ao achado da pedra conhecida como Artognou. Para dar ênfase à descoberta, vamos dar um pouco de conteúdo histórico arturiano, na vertente que conhecemos por Geoffrey de Monmouth no seu "Historia Regum Britanniae" (história dos reis da Britania) de 1136.

Lembram do caso de Uther e Igraine? Uther se engraçou com a mulher de outro rei, mas ela como mulher fiel não quis nem saber de Uther. Assim, Merlin que sabia de tudo e conhecia o desígnio dos tempos, deu ao Uther a aparência do esposo de Igraine, e assim ele chegou aos aposentos dela e consumou sua paixão. Desse furtivo encontro, nasceu o jovem Arthur, que foi criado por Sir Ector sem saber das suas origens. O que não contei para vocês é que o lugar onde o ato foi consumado e o lugar onde Arthur nasceu foi exatamente no castelo de Tintagel. Agora entendem a expressão do Kevin. Eu ia ter um treco.

Pedra sobre pedra

A pedra, uma laje de 35 por 20 cm e com 1 cm de espessura foi provavelmente a tampa de uma drenagem, primeiro atribuída ao século 7 mas em base a outros estudos foi posteriormente datada como do século 6. A peça não está inteira, porém evidencia duas inscrições nítidas. A primeira, em letras garrafais, representa 4 caracteres do fim do período romano. A segunda, menor, menos profunda porém totalmente legível e a que chamou a atenção de todos. Trata-se de uma inscrição em latim, onde as 5 linhas podem ler-se assim:

+ PATER | COLIAVIFICIT | ARTOGNOU | COL[.] | FICIT

Que posteriormente foi lida assim:
+ PATER COLI AVI FICIT ARTOGNOU COL[I] FICIT


A tradução feita por Charles Thomas era "Artognou (PN), Pai de um descendente de Coll (PN), tem feito isto". Vamos combinar que não faz muito sentido, até porque na época as pessoas se explicavam mais, como por exemplo davam os motivos de uma determinada construção. Gordon Machan examinou a pedra novamente, e detectou um "N" faltando após PATER, o que muda completamente a leitura:

+ PATERN[-] COLIAVI FICIT ARTOGNOU COL[I] FICIT

E depois extendido por Machan para:
+ PATERN[OSTER] COLIAVI FICIT ARTOGNOU [MEMORIAM] COL[IAVI] FICIT

Agora lemos "Artognou ergueu este memorial de Colus, seu avô". Embora faça muito mais sentido e seja esta a expressão mais aceita hoje, tudo parte do pressuposto que as letras faltantes sejam as que Machan concluiu na sua dedução.

Robert M. Vermaat (de quem referenciei parte do texto acima) propõe outras letras como faltantes, por exemplo +PATERN[US] ou mesmo +PATERN[IUS]. Nesse caso, podemos transformar a frase até chegar nisso aqui:

+ PATERN[US FILIUS] COLIAVI FICIT ARTOGNOU [MEMORIAM] COL[IAVI] FICIT

Cuja tradução aproximada seria "Paternus filho de Colus ergueu isto em memória de Artognou".

Enfim, o fato é que este achado não foi capaz de revelar o significado de nenhum mistério sobre a existência de Arthur, mas tumultou todo o mundinho arqueológico pelo significado "semiótico" de uma pedra falando Artognov encontrada logo em Tintagel. E é claro, isto serviu para confirmar a teoria de que Tintagel foi uma cidade importante, ao ponto de ter monumentos ou memoriais em homenagem de pessoas importantes, lordes, barões, e quem sabe até reis...

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2 comentários:

Pedrita disse...

eu frequento bastante um blog de um geólogo português e ele explica bastante essas questões. gosto desses assuntos. beijos, pedrita

Renata disse...

Me parece um tanto arbitrário atribuir letras a uma frase só pra fazê-la ter mais sentido, principalmente porque a cada letra, a tradução muda (por favoooor faz um post sobre isso, como pode uma mesma palavra mudar a frase com uma letra a mais ou a menos?). Mas se os descobridores da pedra acharam por bem fazer isso, eu aceito, até porque o sentido muda mas a conclusão acaba sendo a mesma: nenhuma, hehehe.
Eu adoraria escavar. Paciência não é meu forte, mas nesse caso acho que eu faria direitinho, acho o máximo... e imagine encontrar algo tão antigo e importante?
Beijos!