A Demanda do Cavaleiro Verde: Parte 3 e Parte 4

Antes que nada preciso comentar que o post da semana passada foi incompleto; o que não escrevi para vocês é sobre as boas companhias do Gawain. Na lenda arturiana, ele é um "Don Juan", o galanteador por excelência. Ou em termos mais atuais, o xavequeiro.

No castelo onde Gawain se hospedou, tinha várias moças jovens que se interessaram pelo interessante rapaz. Mas a grande sacada da história é que além das moças jovens e bonitas, no castelo também havia uma senhora, uma "old lady" que sentava ao lado do senhor do castelo. O conto não deixa claro o papel desta senhora em relação ao senhor do castelo, se é mulher, mãe, irmã... A questão é que o Gawain trata com respeito todas as mulheres do castelo, desde esta senhora até as mais jovens. E com isso ganha a admiração de todos (e todas).

Parte 3

Para ser sincero, não entendi muito bem esta parte. Rolam alguns costumes medievais meio esquisitos, não fica claro se são apostas entre pessoas, se são bençãos, jeitos de homenagear ou sei lá o quê, mais rolam uns beijinhos entre homens no cangote, e convenhamos, é esquisito. Quem quiser ler no original vá em frente, até mando os arquivos se quiser.

O que posso contar da história é a parte interessante: neste capítulo Gawain tem que se decidir entre o amor cortês e os deveres do cavaleirismo. Enquanto o senhor do castelo parte para a caça todos os dias, Gawain permanece no castelo, e é acordado todos os dias por uma jovem que se encanta por ele. Eles trocam belas palavras, muitas gentilezas, mas ela queria mais; a moça pergunta para ele por qual motivo ele ainda não falou de amor.

Não foi cafajestagem, mas ele não queria se comprometer para vê-la sofrer com sua morte. Ele duvidava que tivesse como sair com vida do encontro com o Cavaleiro Verde, e por esse motivo não achava nobre de parte dele se comprometer de qualquer forma com a moça que tão gentilmente se dedicava a ele.

Na última manhã, ela pede para ele um presente, um símbolo de afeto, e pede para ele uma das suas luvas. Ele disse que não seria correto ele andar com sua armadura incompleta, mas que voltaria para entregar sua luva se tivesse sucesso no encontro com o Cavaleiro Verde; e por outro lado, disse que somente poderia entregar sua luva como presente se ela também entregasse algum presente para ele, como era o costume. Ela tenta dar um anel, que ele rejeita (se não quer compromisso, é claro que um anel não ia querer). Ela oferece então um lenço de seda, que ele também rejeita; mas ela insiste, explicando que não é apenas um lenço; o cavaleiro que o carregasse com ele não poderia ser ferido de forma alguma, sem importar o tipo de golpe que recebesse. Olha só que presente conveniente...

Bonito né? Dá para comprar neste link.

E assim, ele se paramenta como cavaleiro, encomenda sua sorte a Deus e se manda para a capela verde. Com o lenço verde como cinto.
Mais no próximo capítulo... Que segue abaixo.

Parte 4 (Final)

Gawain parte com a ajuda de um servente que prestou ajuda para colocar a armadura; os dois partiram do castelo, cavalgaram pela montanha, até um ponto onde o servente pediu para Gawain desistir da empreitada. Falou do tamanho do homem que ficava na capela, e como não poderia vencé-lo. Mas Gawain foi em frente, até chegar a um lugar medonho: era um pântano onde o lodo borbulhava, cercado de neblina e grandes rochas, e no fundo aparecia uma caverna.

Gawain percebeu a roubada onde estava se metendo. Disse para si mesmo, "esta deve ser a capela onde o capeta reza...", e logo depois disse em voz alta, "Ow, se tiver alguém aí, pode vir que tô aqui, viu?"

O Cavaleiro Verde apareceu, machadão em mãos. E falou para o Gawain que estava contente por ver que ele tinha vindo para cumprir sua promesa. Disse também para tirar o capacete, se ajoelhar e mostrar a nuca.

O Cavaleiro levanta o machado, e quando está descendo, Gawain desvia. O cavaleiro fica furioso e diz que se ele fosse Gawain nao teria desviado, e que estava mentindo. Que nao era digno. Ficou com cara de malucão, e deu um empurrão no Gawain, so que desta vez Gawain não se mexe. E diz que está pronto, embora a cabeça dele não possa voltar ao seu lugar. E não se mexe mais.

O Cavaleiro levantou novamente o machado, e desceu velozmente, mas o machado só fez o corte ao se apoiar na pele, sem afundar mais. Apenas o peço do machado foi todo o golpe que Gawain recebeu e ganhou um corte pequeno na nunca, que sangra e escorre entre seus ombros, manchando a neve de sangue.

Gawain pula ao ver o sangue, pega o capacete, pega seu escudo e espada, e vira para o cavaleiro, falando que a divida estava quite, e que se atacasse de novo iria se defender.

O Cavaleiro Verde abaixa o machado, se apoia nele e fica olhando para Gawain, divertido. Fala que a brincadeira de fato estava quite, e que podia ficar tranquilo que mais nada cobraria dele.

Os ataques foram feitos com um machado sem corte, e como resposta à provocação de ter recebido os beijos da mulher dele. Sim, a tal donzela que ficava se engraçando com ele era na verdade a mulher do cavaleiro verde, e somente estava brincando com ele para descobrir para o próprio marido se o Gawain era um cavaleiro digno.

Por causa do lencinho que ele carregava que sabia que a mulher falava a verdade, e por causa do mesmo lencinho que o Gawain tomou a cacetada final que cortou a pele na nuca.

Gawain ficou enfurecido e envergonhado, com o rosto vermelho do sangue que subiu para a face. Se sentia um trouxa, para dizer a verdade. O fizeram de trouxa.

Ele disse: você é a perdição da virtude, porque teus atos mostraram minha covardia. Devolvo a tuas mãos este falso lenço mágico, que me envergonha como cavaleiro, e desonra as qualidades que um verdadeiro cavaleiro deve ter. Fui covarde e indigno, e não enfrentei teu desafio com a coragem que devia.

O verdao disse: perante dessa confissão, somente posso te absolver de todos teus pecados até hoje; sairás daqui como um homem limpo e puro que nunca conheceu pecado algum, como no dia que fostes nascido. Sobre o lenço verde decorado de ouro e pedras preciosas, o levarßs e guardarás contigo, como lembrança deste dia e como prova da tua aventura na capela verde. Podes voltar para meu castelo, onde farás as pazes com minha esposa e seréis recebido com grande festa.

Gawain disse: Eu agradeço, mas não voltarei para vosso castelo. Encomendai minhas saudações a vossa esposa e as outras damas, que foram tão gentis que nunca homem algum teria suspeitado de armação alguma. Assim como Adão foi enganado por uma mulher, e Salomão por muitas, e mesmo Sansão teve sua senteça em mãos de uma mulher, eu sinto-me menos culpado por ter caído na armadilha. Eu levarei o lenço comigo, não como prêmio em ouro e pedras, mas como lembrança da minha fraqueza. Ele me lembrará da debilidade da carne, e onde tiver que dar provas com minhas armas, me lembrará de ser antes que tudo humilde. Somente uma coisa te peço: que me digais vosso nome, e nada mais perguntarei.

Bernlak de Hautdesert é como sou chamado nestas terras. Morgana a Fada mora no meu castelo, e não há ninguém tão orgulhoso que ela não possa aplacar. Aprendeu as artes da feitiçaria com Merlin, e ele mesmo virou sua vítima. Foi ela quem me mandou para a corte de Arthur para amedrontar Guinevere. Morgana é filha da duquesa de Tintagel, quem depois desposou o Rei Uther. Ela é meia-irmã de Arthur, e também vossa tia. É ela quem conhecestes como a velha senhora que mora no meu castelo, portanto vá visitá-la e leva alegria para ela.

Gawain rejeitou mais uma vez o convite, se despediu do cavaleiro verde, e voltou para a corte de Arthur. Nela contou o que aconteceu para todos, e mostrou a cicatriz no seu pescoço; todos os cavaleiros festejaram e riram com ele pela história, e desde então todos vestiram um cinto verde, em homenagem à aventura de Gawain.

Assim termina a história... e bom carnaval para todo mundo!

2 comentários:

Renata disse...

Humm foi engambelado pela mulherada... algumas coisas nunca mudam, rs ;-p
Parece que o verdinho perdeu o interesse nele, chamou e chamou de volta pro castelo e nem ligou quando Gawain foi embora... e não entendi, Morgana mora com ele?

Wally disse...

Exatamente Rê, a Morgana era a véia que morava no castelo, junto com o tal do senhor do castelo, que não é o Cavaleiro Verde. O Cavaleiro morava na capela verde, que era o buraco fedido no meio da floresta.
O lance do verde ficar chamando é meio nem que o costume de hoje em dia de "sim, temos que combinar alguma coisa", mas ninguém combina nada e fica por isso mesmo, sabe? Muita literatura medieval tem esse tipo de "insistência" quando alguém quer ir embora. Aliás, lembrei do marido de uma amiga nossa que também não deixava ir embora da casa dele.. outra hora te conto direito.
Beijos para os três!