Discurso Corporativo

Na hora do cafezinho...


-Vai demorar muito na reunião?
-Não, são só 40 slides no Powerpoint.

Estava aqui eu, sem assunto para o blog (na verdade, nem era falta de assunto, era mais falta de estudo sobre o que queria falar), e decidi dar uma olhada no google para ver que links achava no Brasil sobre o Rei Arthur. Não mudou muita coisa desde que comecei a postar, ainda posso me considerar o texto mais completo e detalhado sobre lendas arturianas. Em alguns casos, existem até textos interessantes, mas sempre apontando a espiritismo, druidismo e outros "ismos".

Não é com a intenção de fazer propaganda nem nada, mas caí no site de uma empresa de palestras corporativas, daquelas que borrifam todo o jargão corporativo como:


  • Procurando novos desafios
  • Metas estratégicas
  • Valor agregado
  • Excelência operacional
  • Paradigmas, targets, score-cards based, key holders...

Sempre achei uma sofisticação desnecessária, afinal enrolar o discurso geralmente aponta mais falta de conteúdo do que talento na eloqüência. Não há palavras novas, apenas definições rebuscadas. Eu passo mais tempo lendo as entrelinhas desses discursos do que prestando atenção, mas tem gente que acha bonito.


Então, esta empresa organiza atividades para grupos, como corridas de carrinhos, balonismo, paintball (?!?!), e entre tantas coisas, eles criaram um evento sobre o Rei Arthur. Quando vi o vídeo não sabia se rir ou lamentar pelo chute no fígado. Os atores até que fazem um trabalho legal, mas me imagino rindo da cara de todo mundo ao ouvir coisas tão descaracterizadas como por exemplo:


(Merlin)- Não seja assim Mordred! As lideranças do século 21 brilharão pelos seus principios, não pelo carisma.


(Lancelot)- Porque um verdadeiro lider sustenta uma parede (O QUEEE????)


(Cavaleiro X)- Concordo, nós não temos uma boa liderança, nossa parede sempre está caindo (MAS ELE QUER UM REI OU UM PEDREIRO????)



Parei de ver o vídeo no meio, digamos que foi quando meu espanto diminuiu. Eu já fiz dois posts comentando sobre a popularidade da lenda arturiana, mas isso já é um abuso! Queriam brincar de cavaleiros, tá ótimo, mas precisavam pegar o Arthur para isso?
O Rei Arthur é um dos maiores símbolos de liderança, o que explica o motivo da escolha. Um rei admirado, querido pelo seu povo e seus cavaleiros, e respeitado pelo seu carisma. Mesmo assim, foi ferido de morte por um dos seus próximos, traído pela mulher e o império dele ruiu com sua morte. Belo exemplo corporativo, né? Tenho certeza que todo lider empresarial espera um final desses...



Semana que vem: O Cavaleiro sem Nome

Dark Age of Camelot

Nota 1: Estou com uns rolos pessoais que me deixaram desanimado, e por isso o post deste fim de semana vai ser curto. Mesmo assim, espero que curtam ele tanto quanto eu em fazé-lo.

Nota 2: Mudei o vídeo (21/10/07 20:17), simplesmente arrumei umas coisinhas nas legendas e acrescentei uma subliminal no fim, hehe... Além disso, botei alguns links que esqueci. Definitivamente não estou com a cabeça no meu normal.

As Aventuras de Wallaceth

Pegando carona nas telinhas do Diablo II do post anterior, venho contar que andei jogando o Dark Age of Camelot, um jogo online que pega os tempos obscuros que viriam após a morte do Rei Arthur. Avalon cai sob o dominio de invasores, a lenda se mistura com as lendas celtas e nórdicas, e Albion (o país onde fica Camelot) ganha novos aliados e inimigos.

O nome acima é o nome do meu personagem, um Inconnu atualmente no nível 20 e pouco, e que deve chegar em algum momento ao nível 50 (o maior dentro do jogo). Ainda estou conhecendo o mapa, os poderes e os comandos do teclado, mas estou pegando a manha do jogo.
Conheci uma turma boa de jogar, um clã conhecido como Master Raiders. Eles me convidaram para jogar junto, e graças a eles conheci um monte de cenários que ainda não poderia conhecer por causa de meu nível. Digamos que quase me levaram de mãos dadas.
A graça de jogar em turma é a coordenação de um grupo: há atacantes, defensores, pessoas que se encarregam de sarar as outras, pessoas que ordenam o grupo... é bem curioso, e ao mesmo tempo tem o gostinho de estar jogando com pessoas, o que torna tudo mais interessante.

O que tem isso tudo a ver com o rei Arthur? Vejam o vídeo.







Tive um esforço razoável para fazer as legendas; agora entendo pelo que passam as pessoas que fazem legendas de seriado. Posso dizer que finalmente escrevi uma, mesmo que para um vídeo curtinho.


Até a semana que vem!

Como não fazer um filme arturiano

A Última Legião. Ainda bem que foi a última.


Marion já falou deste filme que vimos na semana passada, mas agora é minha vez, seguindo a deixa dela sobre imprecisões históricas e tal.
Falta de roteiro, falhas na atuação, escalação ruim de atores, nítida pobreza de cenários, coreografias e vestiários fazem de "A Última Legião" um filme lamentável. Paguei para ver, afinal é um filme arturiano, mas não passa de uma sessão da tarde. Pena, porque o trailer era realmente inspirador.

A intenção do filme é mostrar de onde veio a espada Excalibur, e mostrar que ela é anterior à lenda do rei Arthur. Mesmo quando o principal elemento do filme seja a espada, é visível a falta de esforço para levantar e movimentar todas as armas do filme; simplesmente são leves demais, e isso prejudica a credibilidade. É ridículo ver uma espada que tem praticamente o tamanho de um claymore irlandês ser levantado como nada por uma criança franzina.

Este filme pega o mesmo momento histórico de outro filme, "King Arthur". A diferença é que no primeiro temos um nítido líder carismático, que repele a invasão saxônica na batalha de monte Baddon. Já em "The Last Legion", temos um líder desinteressado, interpretado pelo namorado da Bridget Jones, e onde parece que todos os atores sabem desse seu passado nebuloso. Ao mesmo tempo, ele tem que aturar um pirralho que se acha superior a todo mundo, e que não é capaz de se defender nem de inspirar ao menos um sentimento de carinho para protegê-lo com motivo. Dá vontade de que ele caia nas mãos do inimigo, os Cotos (que tem a função de interpretar os bárbaros da vez).


Roma. A Cidade Mutante.

A capital do Império Romano atingiu uma população de mais de 1 milhão de habitantes, isso no século V. Pode não parecer muito, mas a próxima cidade em atingir esses números no mundo só conseguiu este fato no século XVIII. Era uma cidade suja, fedida, grande (que coincidência... parece onde moro hoje). Eles inovaram o comércio por terra com suas estradas, que tinham o detalhe de colocar pedras enormes aos lados do caminho para evitar que as carroças ficassem com uma roda pra fora, lamaceando a estrada inteira. Digamos que inventaram a lombada no acostamento.

Os erros que me incomodaram sobre Roma (especialmente considerando que Italia está entre os paises da produção) são basicamente estes:

A moradia do César era o lugar mais privilegiado da cidade. Ele ficava próximo ao Senado, onde longos debates aconteciam na presididas do governador supremo. No filme, após algumas cenas, você descobre que a casa imperial fica logo após o portão da cidade. Isto é um despropósito em vários aspectos:

- Segurança nula.
- Trânsito constante de mercadorias pelos portões.
- Distância até o Senado e o Coliseu, por não falar dos templos.

Outro erro terrível acontece em características mais particulares da cidade. De fato as casas tinham telhas, mas não eram de barro pré-moldado industrial:

- Cara, maneiras essas telhas da tua casa!
- Gostou? Comprei na internet. Entregaram e instalaram. Depois te passo o site...


Um Épico.

Todo filme que aspira ser um épico precisa de elementos marcantes, particularmente no quesito cenários. Como é de se esperar na falta de orçamento, esta é uma das falhas mais miseráveis do filme.
Começamos pela muralha de Adriano, de isopor pintado. Me lembra as obrinhas da minha infância na escola, com o fundo de papelão.

A falta de cuidado fica patente também no fundo azul cretino nos aquedutos romanos. Belíssimo render, pena que tão mal superposto à imagem filmada.

Sabe a sensação de já ter visto determinada cena? Isso se repete, isso se repete, isso se repete. Se repete. A Warner Brothers fez muito desenho animado assim, mas em filme fica estranho. Especialmente quando as cenas são de outro filme.

Lord of The Rings? Não. Aliás, para atravessar os Alpes ninguém precisa de bagagem. Dá para passar a pé na boa.

- Moleque, presta atenção. Essas são as montanhas do SSX3.
- Poxa, é mesmo!
- Legal né?


Inspiração.

Roube (quer dizer, inspire-se nos) cenários de jogos épicos, como Diablo II. Aproveite que é um jogo velho, jogado apenas por milhões de pessoas no mundo todo e com uma das comunidades mais ativas, tanto no site do autor do jogo (Blizzard) quanto em comunidades como o Orkut. Ninguém vai reparar no plágio.


Para quê parar com os cenários, se você pode também plagiar os personagens e suas fantasias??? Olha só essa amostra 3-em-1:

Temos 3 personagens. O guerreiro namorado da Bridget, um Merlin/Obi Wan/Pai-de-Santo, e uma mulher guerreira. O que temos no jogo? Exatamente os mesmos personagens.

Eu não podia deixar de mencionar o mantra repetido até o cansaço, "até o último suspiro" traduzido porcamente. Nada como uma singela homenagem ao "nós andamos" do 300 de Esparta.

Aliás, já copiado o cenário e as fantasias, por quê não as armas?? Imagina se ia deixar isso de fora... Olha só o Katar selecionado em verde, e o que nossa "assassin" está usando no filme:



É pura coincidência que tanto no jogo como no filme sejam duas personagens mulheres, com conhecimento de artes marciais, usem katars e armas a-la-Wolverine, e ambas sejam definidas como assassinas ou mercenárias? Eu não acho.

Resumindo...

A cara do Merlin no começo do post reflete bem a sensação do público.

"Hein?"

Ainda assim, o filme joga no fim apenas uma pontinha do que poderia ter sido, mostrando um jovem Arthur, acompanhado por Merlin como mentor, e com uma cumplicidade carinhosa entre eles. Essa curta cena que parece um extra do filme, logo no fim, mostra como esta outra criança consegue ser tão mais simpática, fazendo o público gostar dele quase de imediato.

Me resta esperar por um bom filme arturiano como foi Excalibur de 1978 ou as Brumas de Avalon (minissérie para TV), ou vou ter que virar diretor de cinema e fazer meu próprio filme. Seria muito legal que alguém pegue os textos do Cornwell, também mostrando um Arthur meio-romano no século V, e faça um filme à altura que as épicas histórias arturianas merecem.
Produtores: Parem de nos enrolar e façam logo um bom filme!!!

Eta feriado bom... O post só saiu hoje!!!




Arthur é pop sim!!!

Para quem lembra de um dos meus primeiros posts, vai um bis atualizado. Estão rolando algumas coisas interessantes relacionadas ao rei mais justo como nunca houve outro...

Graal - O Cavaleiro Sem Nome - Volume 1


Livro de Christian de Montella, trazido ao país pela editora Bertrand Brasil. Mais um romance francês, porém escrito a bem menos tempo do que os de Chretien. Ainda não comecei a ler, mas parece um resumão de histórias arturianas, entre elas a do anão da charrete (que contei nos últimos dois posts), a do rei pescador, a famosa espada na pedra... Este é o primeiro livro de uma saga que já vai pelo quarto, mas fiquei sabendo dele somente agora. Não é de se espantar, afinal ao conferir a data do livro vi que foi impresso neste ano mesmo. Se achar interessante, vou atrás dos outros livros também.
Teve uma outra coleção, do T. H. White, que era quase um Harry Potter arturiano, com direito a coruja e tudo, mas achei muito fraquinho e preferi não continuar com a coleção (especialmente depois de me encantar com os textos do Bernard Cornwell, que não consegui abandonar). Lerei e falarei. Me aguardem.

Avalon High

Romance à la Bridget Jones, Avalon High pega carona na lenda arturiana da mesma forma que Artur e dona Guillotine fizeram na já comentada novela Pé Na Jaca. Acho que o nome da novela correspondeu às minhas expectativas, mas isso não vem ao caso.
Acho bem pouco provável que venha ler esse livro, pelo menos em formato livro (ele também foi publicado em formato mangá, que pode render alguma coisa interessante). Mas para não ficar em nada, vai a resenha que vem na contracapa do livro, copiada de tudo quanto é site de venda online que fez o mesmo com a capa:
Avalon high' pode não ser exatamente o lugar onde Ellie gostaria de estudar, mas até que não é tão ruim assim. Uma escola americana normal, freqüentada pelos mesmos tipos de sempre - Lance, o esportista; Jennifer, a animadora de torcida; e Will, o presidente da turma, jogador talentoso, bom moço... e muito charmoso! Mas nem todos em 'Avalon high' são o que parecem ser... nem mesmo Ellie, como ela logo vai descobrir. Depois de um esbarrão durante uma corrida no parque, os destinos de Ellie e Will parecem estar irremediavelmente entrelaçados.

Ela começa a notar uma série de estranhas coincidências entre o seu cotidiano e a lenda do Rei Arthur - nomes similares, triângulos amorosos, sociedades secretas - mas qual seria seu verdadeiro papel nessa história? Como em Camelot, estariam seus novos amigos fadados a um trágico destino? E pior, o que ela pode fazer para impedir que uma profecia milenar se cumpra mais uma vez? Misturando fantasia, história e romance, Meg Cabot acerta mais uma vez.

Será que acertou? Aliás, acertou o que mesmo??

Interessante também a troca da arte de capa (afinal, aqui tinham que colocar o "Lance" jogando bola), e a omissão do resto do nome, "Coronation: The Merlin Prophecy". As editoras tomam decisões curiosas as vezes. Tudo bem, esta é a capa do mangá.

Para sentir o gostinho, vai uma página.

The Last Legion


Ah, épicos... Novo filme nada divulgado, ainda em cartaz, conta a história do último emperador romano que foge para uma ilha, onde conhece um mentor ao melhor estilo Obi Wan Kenobi, uma guerreira e uma lenda sobre uma espada na pedra.
O trailer é muito empolgante. A crítica massacrou o filme, mas não estou nem aí para isso. Vou pagar para ver, e depois conto para vocês se chorei de emoção ou de raiva.

Somente não entendi porque o site oficial do filme é russo...

Sim, post curto este... afinal meu exagero da semana passada deve ter cansado a turma, quando percebi o texto estava enorme, hehe!

Guinevere. A Rainha Dada.

De como Guinevere deu sua flor para outro jardineiro, e do que aconteceu depois.

Beleza, Lancelot se estropeou inteiro para atravessar a ponte da espada, mas finalmente chegou do outro lado, nas terras do rei Bandemagus e seu filho Meleagant, raptor da rainha.

Ilustração - Lancelot atravessa a ponte da espada, e encontra Meleagant. A rainha Guinevere e o rei Bandemagus observam tudo do alto da torre.

Graças ao Bandemagus, a rainha ficou reclusa sozinha, apenas com os serviçais que iam e vinham. O rei sabia que o filho dele cobiçava a rainha, e para evitar males maiores manteve a rainha afastada do Meleagant. Com isso manteve a honra da rainha, a do filho, e não tirou dele o direito que tinha sobre a justa que ganhou.

Conforme contei antes, quem vencesse o cavaleiro (Meleagant) em justa disputa, poderia reaver a rainha e levar consigo prisioneiros e exilados; foi assim então que apenas sararam as feridas de Lancelot, foi promovida a disputa.

Bandemagus e a rainha Guinevere observaram esta disputa desde o alto de uma torre. Lancelot estava perdendo, até que uma donzela perguntou para a rainha qual o nome do cavaleiro que por ela lutava, e revelou seu nome, Lancelot do Lago. Foi assim que a donzela chamou a atenção de Lancelot, pedindo para olhar para a torre; assim que viu a rainha, suas forças voltaram, e lutou com afinco ao ponto do rei Bandemagus pedir para a rainha pela vida do seu filho, implorando para ela dizer ao Lancelot que parasse com a luta, pois levava grande vantagem.

Meleagant se considerou injustiçado com isso, alegando que podia vencer Lancelot (mesmo quando não tinha mais forças nem condição de lutar). A decisão foi que Lancelot ganhou a justa, mas deveriam combater novamente em um ano para decidir de fato quem tinha ganho. Ele poderia levar a rainha e todos os exilados, e a nova luta aconteceria desta vez em Camelot.

Após a justa, Lancelot foi levado para ver a rainha e o senescal Kai, que também estava preso por lá, após a tentativa falha de resgatar a rainha ainda em Camelot. Mas as coisas não correram bem, e a rainha mandou ele embora. Não quis falar com ele.

Esta conduta veio pelo fato de que ele tinha se desonrado ao subir na charrete. É, tudo volta.

Kai estava coberto em chagas, ainda da luta com Meleagant. Suas chagas nunca saravam, porque embora ele recebesse os melhores cuidados do rei, Meleagant se encarregava de mandar outros médicos com ungüentos mortais. Assim, enquanto melhorava durante o dia, desfalecia pela noite.

Como Lancelot não conseguiu levar a rainha (apesar de ter vencido a justa), ele partiu para procurar Sir Gawain, que vinha para as terras de Bandemagus com o mesmo propósito, porém por outro caminho, o da ponte sob-a-agua.

Ele foi embora desarmado, acompanhado por muitas pessoas que agora eram livres. Mas as pessoas daquela terra que souberam como Lancelot venceu a batalha, acharam que fariam bem em prender Lancelot e levá-lo prisioneiro para agradar ao rei. Assim fizeram, sem encontrar resistência.

Antes deles chegarem ao castelo chegou a notícia de que Lancelot tinha morrido nesse ataque, e com isso Guinevere sentiu-se culpada. Ela se arrependeu de ter rejeitado dessa forma Lancelot, por quem na verdade caía de amores.

Finalmente Lancelot chega ao castelo, é liberto, e com toda a situação aclarada, é chamado novamente para ver sua rainha. Eles conversam longamente, se perdoaram pelas ofensas. Eles querem falar de outros assuntos, mas não tem como rolar um clima nesse momento. Então, ela disse baixinho para ir até a janela dela à noite, para falarem assim, ela dentro e ele fora. Ele não poderia entrar no quarto dela, porque o senescal Kai fica neste quarto também, embora sempre desmaiado e sangrando suas chagas, e porque uma grade enorme protegia a janela de invasores.

Obvio que Lancelot não ia se conformar com ficar olhando. Entortou a grade, mas se machucou ao entrar. Ele entrou no quarto, e na cama da rainha rolou. E rolou. E rolou. Macho-Alfa é assim mesmo.

Ilustração - Lancelot pula a cerca.

Kai nem ficou sabendo, na verdade ninguém soube. Lancelot saiu pela mesma janela, e colocou a grade do jeito que estava, para ninguém suspeitar. O problema é que as feridas de Lancelot ao entortar a grade fizeram suas mãos sangrar, e manchou os alvos lençóis da cama da rainha. Ela, por sua vez, nem percebeu no escuro.

Meleagant foi visitar a rainha nessa manhã, e ao ver os lençóis sujos de sangue fresco, acusou Kai de deitar com a rainha, e desonrá-la. Ela se defende, disse que sangrou pelo nariz, na verdade fala umas preciosidades que vale a pena colocar por completo, enquanto se defende na cama ensangüentada na frente de Bandemagus e Meleagant:

- Minha senhora - diz o rei -, se meu filho disse a verdade, a cousa vai muito mal! - Deus - responde ela -, quem jamais contou mentira tão horrível, mesmo que nascida de um sonho mau! Mas o senescal é bastante leal e cortês para merecer confiança. Quanto a mim, não sou mulher perdida que se vende ou dá a quem deseja seu corpo. Na verdade, Kai não poderia querer de mim tal loucura. E jamais meu coração a quis nem irá querer.

Lindo. Me engana que eu gosto. Até por isso o título do post.

Enfim, acusações vão e voltam, até que Kai diz que vai defender sua honra e a da rainha em luta armada, e que Deus não ia deixar ele ganhar se estivesse mentindo.
A rainha mandou chamar em segredo o Lancelot, para lutar no lugar do Kai, defender a honra dele e da rainha, pois o Kai não tinha condição de lutar.

Nova luta, Lancelot ganha. Ele parte para buscar Gawain, que já era para ter chegado. Ele parte acompanhado de um séquito, mas acaba se separando do grupo chegando perto da ponte por culpa de quem? Mais um anão. Acho que o Chretien tinha cisma com eles.
Lancelot é capturado por Meleagant, e fica preso, escondido.
O séquito que ia com ele achou Gawain, e decidiram ir até a rainha para contar o sumisso de Lancelot. No dia seguinte, chega uma carta como que escrita por Lancelot dizendo que ia para Camelot, e que esperava todos por lá.

Assim a rainha, Kai, Gawain e todos os exilados partiram das terras do rei Bandemagus, e foram para Camelot. Chegando lá, Arthur parabeniza Gawain por ter resgatado a rainha, mas Gawain diz que essa honra corresponde a Lancelot. Ao perguntarem por Lancelot e perceber que ele nunca voltou para Camelot, perceberam que a carta era mais uma mentira.

Nesse meio tempo (enquanto a rainha esteve fora do reino) as donzelas sem esposo organizaram um torneio, para escolherem justamente para que cavaleiros iriam entregar seu amor (e o resto, claro).

A rainha foi assistir este torneio, e Lancelot deu um jeito de se livrar temporariamente da prisão onde estava (na verdade enrolou a mulher do Meleagant).
Lancelot usou armaduras e armas emprestadas, para não ser reconhecido. Ele estava dando uma sova em todos. Nada parecia poder parar o cavaleiro misterioso.
A rainha pediu para uma das suas donzelas chegar até o cavaleiro, e pedir para ele em nome da rainha para "fazer o pior possível". E como todo tolo apaixonado (afinal todos fomos assim alguma vez) parou de lutar, e começou a fazer um sem fim de burradas. Com isso confirmou para a rainha não somente que de fato era Lancelot, como seu amor devoto por ela.
Esta cena se repete um par de vezes, mas no último dia, a rainha mandou sua donzela pedindo para lutar da melhor maneira. E ele o fez. Bateu todo mundo. E bateu em retirada, ao terminar todas as justas, porque prometeu para a mulher de Meleagant voltar para sua prisão, como foi combinado.
Todas as donzelas concordaram e brigaram entre si querendo o cavaleiro desconhecido, porque nenhum outro poderia defender a honra delas como ele fez. Mas, com a partida dele, as donzelas ficaram somente na vontade, e nenhuma delas casou. Ficou tudo para o ano que vem. Sacanagem do Lancelot essa, que não comeu nem deixou ninguém comer, mas não vem ao caso, até porque foi sem querer.

Quando Meleagant soube da escapada do Lancelot, ficou furioso, e percebeu que não podia confiar a prisão de Lancelot para sua mulher. Sendo assim, Mandou construir uma torre e uma ilha afastada, trancou Lancelot nela, vedou todas as entradas, e somente deixou uma janela por onde passavam suprimentos.

Acreditam que Chretien terminou a historia aqui?!?!?

Dizem que ele foi censurado pelo adulterio da rainha, ficou desencantado com a historia e por isso passou o texto para as mãos de alguém bem menos talentoso, o clérigo Geoffroy de Lagny. Ele apenas umas linhas resumiu o que Chretien passou para ele sobre o fim da historia do cavaleiro da charrete:

Meleagant vai para Camelot, para exigir sua justa, um ano após a primeira como combinado. Ele pede para que Lancelot apareça e não se esconda (sabendo muito bem que estava preso na torre). A irmã de Meleagant acha Lancelot, o tira da torre, e cuida dele no seu próprio castelo. Leva ele até Camelot, e a justa acontece. Arthur e Guinevere assistem à luta, combate em que Meleagant perde com sua cabeça cortada, e ninguém sente dor alguma por ele. Fim.

O conto termina. A lenda não.

É, assim mesmo. Por isso que gosto de Chrétien... sabia enrolar, ou em outros termos, nos deu uma poesía fantástica, onde nasceu Lancelot, representado até hoje como o cavaleiro ideal, com apenas um único pecado.

Ilustração - Lancelot e Guinevere aprendem Karatê

Sabiam que foi por isso que ele não viu o graal em toda sua glória? Isto aparece em outro livro, A morte do rei Arthur. Ele chegou onde Galahad viu o graal, mas seu direito de vê-lo foi tirado por causa do adultério. Ele viu o graal através de um véu, e sua busca do graal acabou dessa forma. Foi isto que levou ele a desistir da vida que levava, e tentar garantir seu lugar no ceú virando monge em um mosteiro, o mesmo que encontrou nas terras a caminho do castelo de Bandemagus, onde já tinha seu túmulo reservado, o mais grandioso, mas que somente ganhou seu nome após libertar a rainha e todos os exilados cativos.






Lancelot - O Cavaleiro Da Charrete


Chegou o dia. A pedido do público.



Traição. Intrigas. Mentiras. Sexo. Anões. Não é nenhuma novela nova, e a história do Cavaleiro da charrete.

Quem quiser o roteiro inteiro, é só baixar do projeto Gutenberg, ou em outro site já em HTML. Não digam que não avisei.

A historia de o cavaleiro da charrete não é outra que a de Lancelot e Guinevere, onde é consumada a traição ao rei Arthur, e começam os encontros e desencontros do casal.

Tudo começa com a visita de um cavaleiro armado ao castelo de Camelot, para reclamar para si as terras e pessoas que moravam nas terras que considerava do seu dominio. Este cavaleiro não disse quem era, mas afirmou que ninguém tiraria dele o que tinha ganho. Não havia no reino pessoa valente o bastante para enfrentá-lo.
Ele ainda lançou um desafio: quem acreditasse que poderia vencé-lo devia buscá-lo em uma clareira do bosque perto de Camelot. Quem fosse desafiá-lo, devia levar a rainha Guinevere com ele para disputá-la em justa luta; se o defensor de Camelot ganhar, poderia devolver a rainha ao seu lugar, e voltar com a honra de devolver as terras e pessoas para o rei. Se perder, a rainha iria embora com este cavaleiro desconhecido para suas terras distantes, onde não seria possível resgatá-la.
De forma infantil, o rei concorda com o primeiro tosco que se oferece para tal tarefa, que perde miseravelmente. O otário foi o senescal Kai; pelo menos o sobrinho favorito do rei Arthur, Sir Gawain, foi o único que pensou direito e seguiu Kai, junto com outros cavaleiros.
Infelizmente o grande Gawain não chegou em tempo de salvar Kai. Somente viram o cavalo dele com a sela arrebentada, e manchas de sangue. Outro cavaleiro veio da clareira, correndo no seu cavalo até o fim das forças do animal. Pediu outro cavalo para Gawain, que gentilmente o cedeu dos cavalos que levava com ele; assim que este cavaleiro pegou esta nova montaria, agradeceu, e saiu ao galope novamente. Gawain achou isto tão estranho que decidiu seguí-lo.
Finalmente o achou em uma clareira, hesitando se subia ou não na charrete de um anão; nessa época era uma das maiores desonras ser levado em uma charrete, pois era o transporte onde os condenados a morte eram expostos ao povão antes da execução. A questão é que este cavaleiro não estava no seu juízo fazia mais tempo do que ele lembrava, e após hesitar duas vezes subiu na charrete, com a condição de saber da rainha. Esta oferta foi feita ao Gawain também, mas respondeu que tinha boa montaria, e que seguiria o charreteiro onde ele fosse sem pra isso se humilhar. Lembrem deste fato, é importante para o que virá mais à frente.

Eles chegam a um castelo, onde no dia seguinte puderam ver a rainha sendo levada para terras distantes. O cavaleiro da charrete desfaleceu e tentou se suicidar, mas Gawain o impediu. Gawain e o cavaleiro da charrete seguiram juntos buscando resgatar a rainha, e se separaram em uma encruzilhada do caminho, escolhendo cada um uma senda para chegar até estas terras distantes. Ambos os caminhos levavam a um destino perigoso, enquanto Gawain foi para a passagem pela ponte sob-a-água, o cavaleiro da charrete foi para a passagem pela ponte da espada. Esta ponte era como o gume de uma espada, e dava passagem para as terras do rei Bandemagus.
Mas quem surripiou a rainha não foi Bandemagus; quem fez essa sacanagem foi seu filho Meleagant, um cavaleiro com porte de brucutu e nada gentil. Pelo menos seu pai o impediu de por as mãos na rainha, para não piorar a situação; Bandemagus deu abrigo para a rainha e garantiu que nada lhe faltasse no seu exilio até ser resgatada. Bandemagus era um rei bom e honesto, mas seu filho estragava isso tudo constantemente.

Então, Lancelot, nosso cavaleiro da charrete, superou desafios dos mais variados, sempre com um objetivo em mente: liberar a rainha Guinevere do seu captor, e tirá-la do exilio. Ele foi o primeiro a atravessar a ponte da espada; se feriu gravemente, mas ganhou a admiração e respeito de Bandemagus, quem o ajudou daqui em diante na sua missão. Mas não foi apenas a ponte que Lancelot teve que superar. Foram batalhas, magias, e até teve que resistir a tentação de belas moças bastante dadas (uma delas na verdade até deitou com ele, mas nada aconteceu porque ele não quis).

Teve ele culpa de se apaixonar assim pela rainha? Ele traiu a confiança do seu rei, e o voto de cavaleiro, enquanto a rainha traiu a confiança do seu rei e do seu marido. De fato, não foi uma paixão, entre eles havia amor genuíno. Faz isso ficar diferente o adulterio da rainha? Pode Arthur culpá-la de se apaixonar por outra pessoa? Para deixar a novela mais complicada: seria possível para uma Guinevere amar Arthur e Lancelot, por motivos diferentes? Existe o homem perfeito, ou a mulher perfeita?
Não quero com isso defender ninguém, mas o que mais curto dessa história é a dificultade e o realismo dos personagens para enfrentar dilemas totalmente humanos. Teria sido facílimo para Lancelot possuir qualquer mulher que tivesse vontade de ter; em um torneio conseguiu a façanha de que todas as solteiras desejasem casar com ele, e nenhuma casou nesse ano por causa dele, porque não havia cavaleiro como ele no torneio (olha aí o macho-alfa... né Andrea?). Sendo assim, quem pode culpar a jovem Guinevere de ter se encantado por ele? Mas nisso tudo tanto Lancelot quanto Guinevere nunca são plenamente felizes; a culpa, o remorso e o medo de ser descobertos são seus companheiros constantes.
Primeiro Chrétien, depois Malory, ambos descreveram maravilhosamente os conflitos internos destes dois personagens apaixonados; tudo começa aos poucos, e envolve o leitor ao ponto de não conseguir guardar o livro para depois. Você quer saber o fim, o desenlace da história.

E no que diz aos MEUS leitores... vocês aguentam até a semana que vem para saber o fim da história????? Como eu sou mau as vezes...

Semana que vem: Guinevere entrega sua flor para outro jardineiro!!!!



Chrétien de Troyes

Romances da Távola Redonda

A semana passada não consegui postar, como expliquei no breve comentário que pendurei. Somente cheguei em casa no Domingo à noite, e assim não tive como pesquisar, e ainda menos postar. Pedidas as desculpas e dadas as explicações, posso contar um pouco sobre o post de hoje, e a pesquisa que venho fazendo já faz um par de horas.
Levei dois livros comigo na viagem para Buenos Aires, porém meu tempo livre para leitura (no avião, por exemplo) se concentrou em apenas um deles, "Romances da Távola Redonda" de Chrétien de Troyes. Decidi falar do autor, ou melhor, do trabalho dele e do esforço para conhecermos hoje sobre seu trabalho.

Este livro contém quatro histórias, duas resumidas e duas completas:

Eric e Enide;
Cliges, ou a que se fingiu de morta;
Lancelot, o cavaleiro da charrete;
Ivain, o cavaleiro do leão.

Ele deve ter nascido por volta de 1135 em Champagne, perto da região de Troyes. Ao todo escreveu 7 trabalhos, 6 deles dedicados à lenda arturiana, onde os quatro mencionados acima compõem o ciclo amoroso do autor. É uma pena que até hoje não foi achado o primeiro Tristão, com certeza de autoria dele.

Chrétien é tido como maior autor e símbolo da era medieval e dos romances arturianos franceses, conhecidos também como romances corteses. Devemos a ele a introdução de personagens fundamentais, como Gawain e Lancelot; e da mente dele surgiram partes da lenda tão importantes como o graal, e o nome do reino do rei Arthur, Camelot. Até então, ninguém tinha dado nome às terras de Logres.

Uma coisa que é certa na vida de Chrétien é que trabalhou alternadamente sob dois patronatos, a corte de Champagne e a de Flandres. A corte de Champagne devia ser muito tentadora pela figura da rainha Leonor de Aquitânia, uma mulher de cultura esplêndida. Embora não tenha conseguido o protetorado da rainha Leonor, acabou chegando a Champagne através do patronato de Marie, filha de Leonor, quem propôs para ele o desafio de escrever a historia de Lancelot, o cavaleiro da charrete. Ele não terminou esta historia, que foi finalizada por um contemporâneo dele mas de talento muito menor, chamado Geoffroy de Lagny.
Com a morte do seu patronato em 1181, Chrétien buscou amparo em Flandres, que mantinha relações assíduas com Champagne, e era provavelmente a corte mais rica e predisposta a colaborar com pessoas dedicadas a empreitadas de cunho artístico. Foi lá que empreendeu o trabalho de escrever Perceval, mas que infelizmente não finalizou, falecendo antes de concluí-lo. Quatro autores de talentos variados completaram a obra, acrescentando umas 54000 linhas aos 9000 versos escritos por Chrétien.

Os livros dele foram escritos em verso, com uma poesia em versos de 8 sílabas, cujas rimas acontecem em pares. Estes versos foram compostos em francês antigo, criando um precedente na literatura; até então, estes textos eram compostos em latim. A riqueza destes versos ainda é percebida nas traduções que vieram depois, até na conversão do texto para o formato de prosa.

O livro que tenho em mãos é uma tradução ao idioma português, em formato de prosa. Este livro tem uma ótima introdução, explicando contextos históricos e descrevendo de maneira preciosa a riqueza do texto de Chrétien. É verdade que perdemos muito ao passar um texto em versos para um formato contínuo como a prosa, mas acho que perderíamos muito mais em uma pobre tradução de versos apenas para criar rimas tolas. Isto já acontece só de traduzir os versos do francês antigo para o moderno; ainda assim, o talento de Chrétien transparece e sobrevive a todo este processo, e podemos sentir em alguns momentos na leitura a existência de um texto muito mais rico, uma presença maior que aquela composta apenas pelas palavras à nossa frente.


Como traduzir versos assim?

Cerf chassé qui de soif alainne
ne désire tant la fontaine
n'éperviers ne vient à reclain
si volontiers, quand il a faim
que plus volontiers ne venissent
A ce que nu entretenissent...

(Cervo acossado que de sede ofega /
não deseja tanto a fonte / nem gavião
retorna ao reclamo /de tão bom grado,
quando tem fome / como (os amantes)
desejam /se conhecer nus...)


E termina com:

En ce vouloir m'a mon coeur mis
- Et qui le coeur, beau doux ami?
Dame, mes yeux - Et les yeux qui?-
La grand beauté qu'en vous je vis

(Nesse querer meu coração me pôs /
- E quem pôs o coração, mui doce amigo? /
- Meus olhos, Senhora / - E quem pôs os olhos?
/ - A grande beleza que vi em vós.)

É por este motivo que a prosa vira nossa aliada neste trabalho, dando aos tradutores a possibilidade de trazer a poesia nas palavras, e não nos versos.

Os Manuscritos


O trabalho de um grupo de pessoas em compilar e recopilar os poucos manuscritos que sobreviveram até hoje permite comparar as edições da época medieval das histórias de Chrétien; este trabalho ganhou o nome de Projeto Princeton Charrette. Não vou contar muito mais sobre o projeto aqui (para isso o link), mas só posso dizer que me admirei muito de poder comparar os versos dos manuscritos com o livro que tenho em mãos, e vou compartir com vocês essa experiência nos próximos parágrafos.

Lancelot

A história do cavaleiro da charrete conta a lenda de Lancelot, e sua busca pela rainha Guinevere em terras distantes. Suas crenças e devoção pela rainha são colocadas à prova várias vezes na história.
A tal charrete tem participação apenas no começo da história, e representa o tropeço de Lancelot durante sua busca. Os presidiários e pessoas condenadas eram levadas de charrete em lugares públicos, para provocar escárnio. O amor de Lancelot é colocado à prova ao ser convidado a subir na charrete para obter informações de sua querida rainha, e após hesitar uns segundos, ele decide se submeter a isto com tal de conseguir cumprir sua busca. Cabe mencionar que o nome de Lancelot foi revelado com a história bem avançada, mais ou menos pelo verso 6000. Até então, era apenas um cavaleiro sem nome.

Como disse há pouco, é muito interessante comparar os manuscritos originais com os textos traduzidos para o português. No começo da história, é revelado o vilão desta forma:

A tant ez vos un chevalier
Qui vint a cort molt acesmez,
De totes ses armes armez.
Li chevaliers a tel conroi
S'an vint jusque devant le roi
La ou antre ses barons sist,
Nel salua pas, einz li dist:
Rois Artus, j'ai en ma prison
De ta terre et de ta maison
Chevaliers, dames et puceles,
Mes ne t'an di pas les noveles
Por ce que jes te vuelle randre;
Einçois te voel dire et aprandre
Que tu n'as force ne avoir
Par quoi tu les puisses ravoir;
Et saches bien qu'ainsi morras
Que ja aidier ne lor porras.
Li rois respont qu'il li estuet
Sofrir, s'amander ne le puet,
Mes molt l'an poise duremant.


Em português "prosa", ficou assim:
Sobreveio então um cavaleiro armado com todas as armas. Assim aprestado, caminhou até diante do rei. Não o saudou, apenas disse:
Rei Arthur, retenho em meu poder uma parte da tua terra e da gente da tua casa: cavaleiros, damas e donzelas. Mas não te dou tais novas com intenção de os devolver. Ao contrário, quero informar que não tens força nem bem com que os possas reaver. E fica sabendo que morrerás sem os conseguir socorrer.
O rei responde que terá de sofrer tal desventura, já que não lhe pode remediar. Grande porém será seu pesar.
...

O legal disso é que mesmo quem não conhece ou domina o francês, consegue encontrar a beleza dos versos escondida na tradução, e confirma isso ao ver o texto original.

O que não entendi da história é o preconceito com os anões. É um fato constante durante todas as histórias que os anões são sacanas, e Chrétien não foi nem um pouco delicado para descrever isso:

Li chevaliers a pié, sanz lance,
Aprés la charrete s'avance
Et voit un nain sur les limons,
Qui tenoit come charretons
Une longue verge an sa main.
Et li chevaliers dit au nain:
Nains, fet il, por Deu, car me di
Se tu as veü par ici
Passer ma dame la reïne.
Li nains cuiverz de pute orine
Ne l'an vost noveles conter,
Einz li dist: Se tu viax monter
Sor la charrete que je main,
Savoir porras jusqu'a demain
Que la reïne est devenue.


E na tradução:

O cavaleiro a pé, sem lança, aproxima-se então da charrete e vê sobre os varais um anão que segurava como um charreteiro uma longa vara na mão.
Diz o cavaleiro ao anão:
- Anão, dize-me, por Deus, não viste passar por aqui minha senhora a rainha?
O anão, filho da p_ _ _ , não quis lhe dar novas, mas respondeu:
- Se quiseres subir na charrete que conduzo, podereis saber até amanhã o que foi feito da rainha.

Então.. eu disse para mim mesmo, "Isso aqui foi erro de tradução. Nem a pau chamaram o anão de filho da p_ _ _ no original, imagina!!". Não é que me enganei? Olhem só o texto a partir do verso 347:



Seus comentários abaixo. Semana que vem: Lancelot e Guinevere, ou o conto do cavaleiro da charrete!!