A Fonte do Mal


No post da semana passada contei para vocês sobre Mordred, e falei um pouco das suas origens. Entre elas, comentei uma das vertentes, que coloca ele como filho do rei Lot de Orkney e Anna. O fato é que esta Anna não é Morgana, como falei brincando no post passado, mas trata-se de Morgause, que por esses loucos cruzamentos de história é meia-irmã de Arthur. Sendo assim, Mordred é filho e sobrinho ao mesmo tempo. Isto é o que ocorre também no "Brumas", onde Mordred é filho de Morgana. Vamos ordenar a árvore um pouco:

Temos a Igraine, Morgause e Vivian, três irmãs. Igraine é casada com Gorlois, e tem uma filha, a jovem Morgana. Mais tarde, Uther mata Gorlois e pega Igraine, de quem nasce Arthur. Assim, Morgana e Arthur são irmãos por parte de mãe. Mais tarde, nas festas de Beltane, Arthur pega Morgana, de quem nasce Mordred, que foi criado por Morgause como um filho. Mordred é então filho da sua própria tia, pelo menos é a versão do Brumas.

Só que aqui tem um probleminha. Só como lembrete, o Le Mort d'Arthur de Malory foi publicado por Caxton em 1485, mas tivemos outras versões muito antes. Mas vamos falar do Malory:

Neste caso Morgause é irmã de Morgana, e portanto ambas são filhas de Igraine e Gorlois (o duque de Cornwall). Mas para entortar mesmo a história, Arthur teve um affair com Morgause (não com Morgana), e foi desse deslize que nasce Mordred. Olha a virada de folha.

Não bastasse essa confusão, o nome Morgause é bem tardio na lenda, e demora bastante para aparecer. Ele não aparece nos registros "oficiais" como seria o texto do Geoffrey de Monmouth, o mesmo o Gildas. Morgause parece ter surgido ao acaso, inventada por algum autor no meio da história.

O fato é que a rainha do Lot, rei de Orkney, não é outra que Anna (isso pelo menos segundo o Geoffrey), mas quando vamos ver o texto do Malory eis que aparece uma tal de Morgause.

Outro fator curioso é que os personagens de Morgause e Morgana se misturam muito, e trocam lugares várias vezes. O perfil mais serelepe da Morgana encaixa mais com certas histórias, mas no fundo Morgause também é pintada como uma mulher cheia de qualidades duvidosas. Embora bela e praticamente imune ao passo do tempo, Morgause é muito inconformada e quer um destino maior. Não lhe basta ser rainha, quer ser "A" rainha, ou seja a High Queen, mesmo sem um rei do lado. Assim, impulsiona o jovem Mordred via argumentos melindrosos, se valendo de artimanhas e intrigas para que possa galgar um a um seguidores que o tornem poderoso. Mas isso tudo é no fundo um plano para ela virar rainha, através do poder do filho.

Com a influência das traduções e contos medievais (onde a Igreja começa a ter um peso enorme no rumo do texto) o papel de Morgause fica um pouquinho mais recatado, mas é Morgana que passa a ser a bruxa, a fada má, a praticante de feitiçaria e do obscuro. As origens de Morgana (considerando os contos originais) passam a jogar contra ela, deixando de ser a curandeira e benfeitora para adotar o papel da "maligna".

Vamos colocar dois exemplos que lembro bem. Se vocês lembram do conto de Eric e Enide, Eric pede ao Rei Arthur para celebrar o casamento, e assim o rei convida seus amigos mais ilustres, entre eles o Guingomar, senhor da ilha de Avalon e amigo de Morgana. Quer dizer, Morgana até aqui era boa gente, e não tinha relação nenhuma com Arthur.

O segundo exemplo é no conto mais recente que trouxe no blog, o de Yvain, o cavaleiro do Leão. Antes dele ficar amiguinho do leão, Yvain teve um surto de loucura e virou vagabundo, se perdendo no bosque. Mas uma dama o encontrou e passou nele um hipoglós mágico... da Morgana! Dessa parte lembram, né? Aqui Morgana ainda era uma curandeira, mestre na arte das poções.

Mas muito antes disso temos outra versão ainda mais poética da Morgana, a versão celta, própria das mais antigas lendas de Gales. Nessas histórias Morgana é Morgain, a versão feminina do nome Morgan, que se mistura com Morrigan, ou mesmo Morrigu nas lendas da Irlanda. Morrigan é uma deusa celta, a deusa da morte, interpretada como três deusas em uma. Como se isso não bastasse para confundir, Modron (sim, mais um nome) era filha de Avalach com Uriens, e deve ter sido exatamente neste ponto que as lendas celtas e a lenda arturiana se misturaram, colocando o rei Uriens como o rei idoso marido de Morgana, quem planeja a morte de Uriens e posteriormente a de Arthur.

Entre outras misturas, surge Morgan Le Fay (a fada), que tem a ver com sua natureza sobrenatural; Morgan Le Fay pode aparecer como uma mulher mais nova ou mais velha, como outras pessoas ou mesmo como animais e objetos, e até criar asas, como uma fada. Mas indo fundo mesmo, Morgana era uma das três damas que levou Arthur para Avalon, depois da batalha de Camlann onde fora mortalmente ferido. De novo, três mulheres, a morte, e Morgana entre elas.

É claro que com a influência da Igreja, Morgana passou a ser mal vista, virou má companhia, simbolo do ocultismo e por aí vai. Como já contei outras vezes, a Igreja nunca aceitou o druidismo ou religiões antigas, pagãs, e foi transformando as coisas aos poucos. Nem que o Yule que virou Natal. Assim, Morgana a Fada virou Morgana a Bruxa.

Mas ainda vou falar de outra mulher que tem uma história tão complicada quanto a destas irmãs que se misturam. Acreditem, dona Guinevere é tão complicada como Morgana!

Até o próximo post!

Covarde?

Apenas uma notinha antes do post oficial de hoje: Como complemento ao texto da semana passada, vale mencionar que o lance "Herodes" do Arthur ao juntar as crianças nascidas em Maio e enfiar num barco foi invenção do Malory. Não encontrei essa versão em nenhum texto anterior, nem no Chrétien, nem em nenhuma outra. Não sei as razões para ter colocado essa atitude mal-caráter no Arthur, mas foi no mínimo um ato de covardia que não espero dele. Como se as palavras do Merlin fossem tão fortes que se viu impelido a agir dessa forma.

Li um texto na internet sobre uma interpretação psicológica do Arthur, e coincido com alguns pontos mas outros achei muito discutíveis. Por exemplo, destacam que Arthur era um covarde por atos como não condenar a Guinevere e o Lancelot, mas não acho que seja covardia. É um impasse terrível. Não tinha decisão boa, saída elegante para a situação dele. Se condena sua mulher e amigo para a fogueira fica como rei forte, mas ainda assim como um rei onde as coisas acontecem às suas costas. Seria lembrado como o rei que matou sua própria rainha e que escolhe amigos errados.

Já com a atitude que teve, tentou preservar a ordem, e fazer de conta que nada acontecia para não criar caso, mas principalmente para que o reino não desaba-se nas suas mãos. Ele retardou a decisão enquanto pode, porque foi a maneira que encontrou de resolver as coisas, pensando no bem maior (digamos, se sacrifica ou aceita a dor para manter Camelot em pé, que afinal era seu sonho, uma Britania unida e sem guerras).

Esperou por outra solução, onde não tivesse que se afastar da mulher e o amigo, pessoas que amava profundamente e retribuíam esse amor por ele. É complicado se colocar no lugar dele e pensar o que teria feito. A atitude dele me diz apenas que ele era tão humano quanto nós, com virtudes e defeitos.

Só.

O Vilão

Como acontece com todo mundo, as vezes me bate um certo cansaço. Fico com preguiça de escrever, de sentar na frente do micro, e nesse estado é bem difícil vir uma ideia para post. Sou plenamente ciente que o assunto do meu blog é inesgotável, mesmo quando demoro para achar o que falar. São tantas as interpretações da história, que cada vez que começo a cavar me surpreendo com o que encontro. Simplesmente as coisas começam a se encaixar, e tudo parece mais fácil.

Lendo alguns posts mais antigos, percebo o pique que tinha para escrever posts longos. Não era por me sobrar o tempo, mas evidentemente as atividades que tinha não me esgotavam mentalmente como as que tenho hoje. É preciso muito equilíbrio para não pirar, para não deixar que o que acontece na tua volta te afete de vez e acabe com teu jeito de ser. Estou em uma fase mais contemplativa, me perguntando quem sou e o que quero ser. Apreciando as mudanças na minha vida e me adaptando a elas. Por isso, peço que não estranhem se volta e meia aparece um post muito curto, ou se pulo uma semana. Estou por assim dizer em um período de adaptação, que preciso entender. Mas enquanto não me adapto... vamos blogar!

Mala Gente

Revisando o blog, me espantei ao perceber como deixei alguns personagens críticos sem um comentário sequer. Sem falar da sua vida, sem dizer quem foi, como chegou onde chegou... Tem personagens simplesmente abandonados, sem uma razão específica. Entre eles, os vilões. E entre os vilões, o maior deles... Mordred.

Como é possível que ainda não tenha falado do Mordred? Onde estava com a cabeça? Que classe de blogueiro arturiano sou?

A ideia veio repentinamente, acho que por causa de todas as tragédias que estão acontecendo. Angra dos Reis, Vila Pantanal, Haiti... sem falar de coisas mais próximas, como um colega que foi assaltado na sexta-feira, ou outro que entraram na casa dele e roubaram tudo enquanto viajava. Há muita maldade na nossa volta, muita tragédia acontecendo... mal estamos na metade de Janeiro e já vi de tudo. Estou ficando com medinho do 2010, sinceramente.

Mas vamos voltar ao culpado da maior tragédia épica... o Mordred. O ingrato, resentido Mordred. É interessante descobrir algumas coisas sobre ele ao pesquisar as origens do personagem. Vejam só como rolou a coisa:

"Sir Mordred" por H. J. Ford, do livro
"King Arthur: The Tales of the Round Table" de Andrew Lang. 1902.



Mordred também é conhecido como Mordret, Medrawd ou Medraut; na infeliz tradução para o português aparece como Morderete. Uma das primeiras aparições do sujeito foi no Annales Cambriae (sem piadinhas pelo Annales, ok?), obra que conta a história de Gales. Nele ficamos sabendo que em 537 ocorreu a grande batalha de Camlann, "onde Arthur e Mordred pereceram". Este texto não diz que eles sejam inimigos, simplesmente não podemos afirmar nada sobre a relação entre eles. Mas aparecem na mesma batalha, e por algum motivo Mordred ganhou atenção suficiente para aparecer ao lado de Arthur. Curioso... Quem quiser clicar no link pode ver outros fatos que constam no texto entre os anos 447 e 954. Um outro texto galés, conhecido como "o sonho de Rhonabwy" conta de uma guerra entre Arthur e Medrawd, disparada por um mensageiro de Arthur que irritou Medrawd, com quem as relações diplomáticas eram bem tensas.

Mais tarde, no Historia Regnum Brittonum de 1136, Geoffrey de Monmouth coloca Mordred no papel de vilão, e responsável pela morte de Arthur. Em tempos onde Lancelot ainda não existia (e portanto não tínhamos nosso elemento romântico traidor), Mordred ocupa este lugar na história de um jeito particular. Mordred é sobrinho de Arthur, filho do rei Lot com Anna (sacaram? morg..Anna??), meia-irmã de Arthur. Enquanto Arthur enfrentava o comandante romano Lucius e estava assim afastado do reino, Mordred desposou Guinevere e se fez chamar rei no lugar de Arthur. A questão é que Arthur volta e ocorrem várias batalhas, a última delas em Camlann, com o resultado que já sabemos.

Neste ponto do ciclo vulgato há duas versões sobre o nascimento de Mordred. Uma história diz que Anna e Arthur não sabiam que eram irmãos, e descobrem seu ato incestuoso posteriormente. A outra versão é semelhante ao próprio nascimento de Arthur, onde Anna era objeto de desejo de Arthur e ele dá um jeito para que Anna o confunda com seu marido, o rei Lot.

Posteriormente, um bocado de fontes diferentes alimentaram a versão mais conhecida e famosa, a versão do Sir Thomas Malory. Nesta versão, Merlin lança uma previsão ao Arthur, dizendo que a criança nascida em "May-Day" seria responsável pela sua morte. e o fim do seu reinado Antes que perguntem, May-Day é o primeiro dia de Maio, e equivale à festa pagã da primavera. Sim, as festas de Beltane. Aham, exatamente. Tudo isso que estão pensando.

Por causa desta visão do Merlin, Arthur manda recolher todas as crianças nascidas nesse periodo, as enfia em um barco e as manda mar adentro, esperando que a que causaria seu fim morra. Mas o barco bate em um rochedo, todos morrem menos Mordred, que é encontrado ainda bebê e criado até chegar aos 14 anos. Não ouvimos muita coisa dele até que começa a participar dos torneios, e se junta a Agravain para bolar o plano que pega Lancelot e Guinevere no bem-bom. A partir daí o resto é conhecido, né?

As reencarnações mais recentes do Mordred pegam carona na riqueza de detalhes do Malory, fazendo o personagem cada vez mais vivo, deixando o papel de um simples nome para carrasco e virando um ser com motivos próprios. Um personagem vil, torto, ardiloso. E ao mesmo tempo, vítima de um ressentimento, vítima da dualidade de odiar e amar seu progenitor. Se encontrar no papel de desejar o trono para si, mas com um desejo ainda maior de ser reconhecido e saber que isso não vai acontecer por ser bastardo. Essa dualidade que o transforma em um vilão tão interessante, e faz a lenda toda ainda mais rica. Afinal, sem vilões não teríamos heróis, certo?

Até o próximo post!

Te conheço de onde?

Eis que estava no cinema, assistindo o novo filme do Sherlock Holmes, e aparece um rosto familiar. Eu olhei para a cara do sujeito, um ator em um papel secundário, e disse para mim mesmo que esse cara era o Mordred. Eu sabia não apenas que ele esteve em um filme arturiano, tinha também a certeza do papel... mas sem chance de lembrar de qual filme.

Hoje lembrei disso por acaso, e fui atrás do nome do ator para confirmar minha impressão. De fato, o ator era Hans Matheson, figura conhecida de vários filmes de época (talvez pelo traço clássico no rosto), e interpretou Mordred no filme das Brumas de Avalon. Bingo. Ainda aparece no filme Nero, e no seriado The Tudors.

Nesse sentido, é interessante descobrir como atores bem conhecidos apareceram em filmes arturianos. Olha só alguns casos curiosos:

Sem sair ainda do "Brumas, encontramos a Samantha Matis no papel de Guinevere. Ela já apareceu no seriado Lost, em Grey's Anatomy e no House; falando em filmes, a mocinha apareceu em fitas tão variadas como Broken Arrow (um filme de ação com John Travolta) até no filme do Mario Bros.

Também do Brumas, encontramos o senhor Michael Byrne, quem esteve também no épico Braveheart (conhecido no Brasil como Coração Valente, aquele do Mel Gibson pintado de azul). Entre os dados curiosos da carreira de Byrne, ele interpretou um nazista no Indiana Jones e a última cruzada, e um judeu sobrevivente do holocausto no O Pupilo (aliás, filmão...)

Forçando mais a barra ainda, o Gorlois do Brumas de Avalon foi interpretado por Clive Russell... que também esteve no Sherlock Holmes! Neste novo filme interpreta o capitão Tanner. Esse me passou batido, acabei de descobrir. Não bastasse isso tudo (1), faz o papel do pai do Lancelot no filme King Arthur de 2004. Não bastasse isso tudo (2), fez o papel de Bayard em um episódio do seriado Merlin. Mas não só de fitas de época vive uma pessoa; só por dar um exemplo bem gritante, apareceu em um episódio do seriado "Secret Diary of a Call Girl", que para quem não conhece e a versão original, estrangeira e bem feita da Bruna Surfistinha. O pior é que por ter colocado o nome dela no blog vão cair um monte de "visitas" no blog buscando outra coisa...

Então, esse é meu recado: Cada vez que vejam um filme e pensem em ter visto um determinado ator ou atriz em outro papel, com certeza viram. É só procurar que descobrem... Todos os dados acima vieram do IMDB, que recomendo para quem não conhece. Tem um ótimo mecanismo de busca, e funciona com nomes de filmes, de atores e até de personagens.

Bom fim de semana e até o próximo post!

N97

Galera, estou testando blogar do N97, sem acentos nem nada, so para ver como fica. Are agora vai que eh uma beleza!!! A unica coisa que nao funcionou eh o enter, dai tudo fica no mesmo paragrafo. Eh claro que isto nao conta como post, mas vale como teste caso esteja "on the road" sem acesso a outra coisa alem do celular. Nao quis usar nenhum programa para blogar, vou direto pelo web browser do N97. Vamos ver se consigo escrever um post neste finde, mas caso nao consiga o post vai rolar no meio da semana, ok?

Resultados

Ok, antes que me venham com a clássica "pô, não vai falar nada do Arthur hoje?", posso dizer que tive um resultado inesperado ao colocar "Excalibur" no Google. Olha só a PRIMEIRA entrada:



Aí eu disse pra mim mesmo, "Camelot... or What." E fiquei sem assunto de vez... Assim que decidi refletir sobre o fim de ano. Quem estiver a fim, faça a mesma busca e clique... vão dar risada com o nome das "suites".

Como passaram o Natal? Espero que melhor que o pessoal que saiu no quebra-pau no Suriname, ou os passageiros do vôo do idiota fundamentalista com biribinha na meia. E sei que o Natal do Papa foi agitado, no mal sentido.

Não lembro de outros Natais com tanta bagunça como o deste ano. Mas o meu foi legal, bem legal aliás; foi minha vez de cozinhar, e não por me gabar mas cozinho muito bem. Ao menos, na opinião popular do júri (incontáveis amigos que já vieram pra casa e deram a mesma opinião; alguns até marmita levaram, imagina!). Dessa vez o prato foi surpresa até para mim, foi a primeira vez que fiz, e saiu espetacular. Achei num momento que o prato não ia chegar até a ceia de Natal, e íamos comer antes, hehe...

Estou de férias ainda, e felizmente muito cansado de tantas coisas que fiz. Tenho bastantes planos ainda para as semanas que restam, e se tudo der certo vou me cansar muito mais. É fundamental saber dedicar nosso tempo livre às coisas que gostamos, mas também saborear as coisas simples; tirar tempo para ler, apenas ler, sem fazer outra coisa; escutar música, não como pano de fundo de outra atividade, mas apenas ouvir música, reconhecendo cada som, apreciando cada acorde; sentar à mesa para se deliciar com um bom prato, uma bebida refrescante, sem fazer outra coisa além de saborear e conversar. O tempo corre, sempre, mas nós não precisamos correr. Nós corremos por querer fazer mais, mas não podemos correr mais do que nossas pernas. Isso frustra, e começamos a achar que não fizemos nada, mesmo quando faltou uma coisinha ou outra. É como se ocupar demais; querer fazer inglês, dançar tango, faculdade e cozinhar ao mesmo tempo. Não rola, porque não é para rolar.

Muitas pessoas costumam fazer pautas, resoluções para o novo ano, objetivos, propostas de mudança. Acho saudável, mas somente quando elas são objetivas. Não podemos dizer coisas como "vou comer menos". Menos quanto? Um biscoito a menos por dia? Uma pizza a menos no sábado? Vou comer menos tomate e mais alface? Gente, comam o que tenham vontade, desde que não afete a saúde. E isso vale para tudo. Digam "este ano vou aprender a dançar tango", ou "este ano vou aprender 2 receitas novas por mês". Façam propostas para o ano que possam cobrar de vocês mesmos, que possam acompanhar, e que no fim fiquem com vocês. Eu por exemplo quero manter a regularidade que tenho com o blog; um post por semana. Não importa se estou viajando, se estou doente, se estou de mudança, se fiquei sem computador; eu quero ter um post no blog por semana. Podem me cobrar.

Eu vou me cobrar também outras duas coisas: Terminar de ler todos os livros do Bernard Cornwell que não li ainda, e arrumar uma estante que preste para armazenar os livros como corresponde. São duas resoluções que devo cumprir, sei que posso, agora é só fazer.

E uma que quero me cobrar e não engordar de novo; 2009 vai ser o ano que vou lembrar como o ano que tirei a engordada que ganhei depois de casado, e embora não cheguei no peso de solteiro estou me sentindo muito bem fisicamente. Posso correr, posso pular, posso até cortar a unha do pé sem lembrar da barriga me incomodando. E com isso, tudo melhora. Estar bem significa ficar bem com os outros, e ganhar disposição para mais um monte de coisas. Estou com um pique que me surpreende; e meu objetivo é manter esse pique todo o ano inteiro.

Não sei o que me espera para esse novo ano, mas que venha!

Até o ano que vem!

Natal? Em Junho?

Na curta vida que o blog leva até agora, já me ocorreu repetidas vezes (como é de se esperar) de não saber sobre o que falar. Em outras ocasiões, o assunto vem fácil por causa da data, mas nem sempre é fácil de explorar, ou de escrever sem ser repetitivo. Em 2007 ignorei completamente o Natal no blog, apenas cumprimentando os leitores; já em 2008 comentei sobre o Natal medieval. Aí disse para mim mesmo, "E este ano? Do que falo no Natal?"

Queima do tronco de Natal... Costume europeu, não me olhem assim!!

Como nota introdutória, vale dizer que esta semana estive afastado do computador em geral, aproveitando uma semana das férias para viajar e espairecer as ideias. Foi muito bacana, porque longe das distrações tive um bom tempo para ler, e estou próximo do fim do primeiro livro das crônicas saxônicas do Bernard Cornwell. "O Último Reino" é o nome do livro, e nos conta da queda dos reinos saxões durante a invasão dinamarquesa em 871 d.C., através dos olhos de um jovem saxão de nome Uthred. Foi lendo este livro que lembrei de um fato; antes do Natal, se celebrava o Yule. E o que seria o Yule, exatamente?

Yule é a festividade ou Sabbat que corresponde ao solstício de inverno, que no hemisfério sul (a.k.a. "o nosso" na América Latina) corresponde ao dia 21 de Junho. Logicamente, para os nórdicos esta data era o 21 de Dezembro.

O Yule era para todos os fins práticos o Natal pagão. Ele ocorria exatamente na noite mais longa do ano, ou o dia com menos horas de sol.

Eu imagino a confusão na cabeça das pessoas ao falarem de Natal, do Deus Cristão, dizer que era razão para comemorar o nascimento de uma criança, e ao mesmo tempo proibir as festas pagãs. Provavelmente no meio dessa confusão que surgiram concessões, permitindo aos pagãos fazer determinadas práticas associadas ao Yule "como se fossem" do Natal. Assim, coisas como decorar a árvore, o visco e algumas outras foram adotadas para a nova celebração.

Pesquisei algumas fontes na internet com resultados variados sobre as origens do Yule, e o fator comum parece ser a origem germânica da coisa (ou seja, nórdica em geral). Vi também algumas menções à Saturnália, a festa de inverno dos Romanos. O que parece ser fato mesmo é que a festa do Natal existia antes do Natal, e o cristianismo pegou carona na data para associar as festas ao nascimento de Cristo na Terra. Seja como for, isso tudo me trouxe algumas lembranças de sermões que escutei quando ainda era criança; de como deveríamos entrar na festa de Natal com a nossa alma recatada, pensando que o que estamos celebrando era o nascimento do nosso Salvador, e não era uma festa de comida e bebedeira. Concordei com essa visão, como toda criança nova concordaria com o que os adultos dizem. Mas hoje minha impressão é outra, provavelmente por ter crescido, pela experiência de vida, por ser o adulto esta vez.

Acho que devemos aproveitar as oportunidades que temos de celebrar. A festa de Natal é um feriado, e quem não trabalha nesse dia está no seu direito de comemorar, de comer e beber, de ser feliz ao lado de pessoas que goste. O Yule era uma festa de quase duas semanas, e nós temos dois dias, o Natal e a virada do Ano. Então, independente às nossas religiões e crenças, acho que temos o direito de comemorar sim. Assim como comemoramos aniversários, formaturas, conquistas de bens, casamentos, nascimentos... Temos que festejar sim.

Para encerrar o post Yuleico de hoje, vou deixar uma canja do livro que estou lendo, onde Uthred reflexiona sobre esta data. Olha só:

Passei muitos Natais na corte dos saxões do oeste. O Natal é o Yule com religião, e os saxões do oeste conseguiram estragar a festa do meio do inverno com monges cantando, padres arengando e sermões violentamente longos. Yule deveria ser uma comemoração e um consolo, um momento de calor e alegria no auge do inverno, uma época de comer porque a gente sabe que estão chegando tempos magros em que a comida será escassa e o gelo trancará a terra. É uma ocasião de ficar feliz, se embebedar, comportar-se de modo irresponsável e acordar na manhã seguinte imaginando se algum dia irá se sentir bem de novo, mas o saxões do oeste entregaram a festa aos padres, que a tornaram alegre como um funeral. Nunca entendi realmente por que as pessoas acham que a religião tem lugar na festa do meio do inverno, mas, claro, naquela época os dinamarqueses se lembravam dos seus deuses e faziam sacrifícios a eles, mas também acreditavam que Odin, Tor e os outros deuses estavam festejando em Asgard e não tinham desejo de estragar as festas em Midgard, o nosso mundo. Isso parece sensato, mas aprendi que a maioria dos cristãos sente uma suspeita temerosa com relação à alegria, e Yule oferecia alegria demais para o gosto deles. Algumas pessoas em Wessex sabiam como comemorá-lo, e eu sempre fiz o máximo possível, mas se Alfredo estivesse por perto você podia ter certeza de que teríamos que jejuar, rezar e nos arrependermos durante todos os 12 dias de Natal.

Felizmente nosso Natal é mais animado que o da corte de Wessex do século 9, mas a mensagem que quero deixar é essa. Comemorem, se divirtam, respeitem uns aos outros e boas festas para todos!!
Até a semana que vem!

Nota: Mais curiosidades sobre o Natal? Vejam o livro "Christmas: Its Origin and Associations" de W.F. Dawson de 1902, de graça no projeto Gutenberg.