Nas Terras do Rei Arthur - Parte 2

Este post é continuação de um post anterior, portanto, se você não viu o que está rolando, veja o post anterior neste link.

Voltando a assunto, meu vôo saiu pontualmente às 16:15 no 3 de Abril, domingão. O vôo estava tranqüilo, com bom espaço gente que conseguiu deitar ocupando 4 poltronas lá no final do avião. Logo de cara olhei a programação de bordo, e assisti na telinha do assento "The King's Speech", que é um filmão. Detalhe: assisti sem legendas. Inglês británico de meados do século 20, com vocabulário extraordinário e pomposo, expressado na voz de um tartamudo. Era isso que precisava para abrir a cabeça e me preparar para o que vinha. Eu peguei corredor (como em toda viagem atlântica), e na janela vinha um carinha que falava mole. Bem apessoado até, mas falando mole. Duas possibilidades: ou estava bêbado, ou tomou alguma coisa para apagar no avião por cagaço de voar. O fato é que ficou com a janela aberta, um sol fortíssimo por cima das nuvens na cara, e dormindo, apagadaço. Logicamente, acordou por volta das duas da manhã, pilhado de tanto dormir, e ligou o notebook. Era um iMac com a tela estúpidamente brilhante. Ficou no Word (ou coisa parecida) escrevendo um monte, iluminando o avião inteiro com esse negócio, enquanto as pessoas tentavam dormir, do jeito que dava. E eu com esse refletor me apontando.

Tempo depois, parei de ouvir o teclado, mas a luz continuava. Virei para ver o que estava rolando; achei que o sujeito tinha dormido com a máquina aberta, mas aí vi o que era. iTunes. É. Qualquer pessoa normal ia optar por ouvir o som da rário do avião, ou usar o celular o mesmo qualquer player de bolso para ouvir músicas. Mas não; meu coleguinha de banco precisava um iTunes de 15 polegadas ligado no meio da noite para ouvir suas músiquinhas. Cansei, levantei, e fui bater papo com os comissários de bordo.

Eles, super gentis, me deram um bocado de dicas sobre a cidade, e lugares que podia visitar perto de Milton Keynes. No fim não visitei nenhum deles, mas para não esquecer do Dave vou dizer que era comissário británico muito simpático, e que era a cara do Matt Parkman (gordinho do Heroes que lê mentes), ou mesmo do piloto de avião que morre pelo Lostzilla. Bom que era só comissário e não piloto, senão ia me preocupar seriamente com o rumo do meu vôo.

Cheguei em Heathrow no terminal 5, descemos na pista, e fazia 10 graus. Clima bom, gosto desse friozinho de manhã. O onibus nos levou até o terminal, e lá que tomei um susto. Passando junto com os outros passageiros, um policial me segura firme pelo ombro e me puxa pra fora da fila. "F...deu", pensei.

Perguntas básicas, e eu nervoso pela fama da Inglaterra devolver gente. Respondi tudo com o melhor inglês que podia (que não é ruim, mas ficando nervoso custa pra sair). No fundo, acho que ia ficar nervoso respondendo em qualquer idioma mesmo. Subitamente, vieram duas palavras para minha mente, que foram a chave de passagem: "Bussiness Trip". Com isso fui liberado imediatamente, com um "Thank You for your cooperation, and sorry for any inconvenience" (Obrigado e desculpa qualquer coisa, viu?). Claro, a partir desse momento e até sair do aeroporto, nem respirava mais. Devia estar pálido, provavelmente. Coloquei o fone de ouvido, espetei no celular, e nem liguei o som. Fiquei mexendo no aparelho para pegar sinal de celular. Guardei no bolso. Pensava, "esse cara com certeza me marcou. Vão me deixar passar para me pegar depois. Vou me ferrar.". A fila andou, e chegou minha vez na imigração. Dei o sorriso mais cara de pau que dei na minha vida para a moça, junto com meu passaporte e um "good morning". Me perguntou as mesmas coisas, respondi de novo, "bussiness trip". Me perguntou onde ia ficar, e falei que ia passar um dia em Londres, e depois ia para Milton Keynes, onde era o "meeting". Quantos dias vou ficar, etc, etc, mais um par de perguntas, folhou o passaporte. Falando nisso, meu passaporte é horrível por ser feito no consulado, tem toda a cara de ser falso, mas por sorte já tem carimbos da Alemanha e França, e isso dá um pouco de credibilidade.

Finalmente, achou um espaço em branco (que não é para os vistos nem carimbos, é o espaço para renovações), e meteu o carimbão. Eu olhei o passaporte, agradeci e sai para buscar minha mala. Ufa.

Peguei a mala, e faltava passar pelo último controle. Uma japinha com um cachorro grande, não lembro o nome da raça mas é um cão de caça, do porte e tamanho de um Golden Retriever, só que com orelhas compridas como as de um Cocker Spaniel. Sempre aparece nos filmes quando caçam patos, ou até no joguinho do Duck Hunt.

O cachorro me cheirou, cheirou minha mala, e passei. Estava indo e voltei dois passos, para perguntar o nome do cachorro. Rocko. Cumprimentei o Rocko, e deixei ele me cheirar de novo, agora na amizade.

O aeroporto é gigante, e por sorte (ou experiência?) me orientei muito rápido. Achei o locker, que na verdade é um storage de bagagem pago (foi 8 libras por um periodo de 24 horas), onde escaneiam a mala e perguntam algumas coisas sobre os eletrônicos ou qualquer outra coisa que acharem durante o scan. Larguei os dois notebooks na mala grande, e fiquei somente com a mochila quase vazia, um caderninho, caneta, documentos, grana, as cameras de foto e o agasalho. O lance era viajar o mais leve possível, nada de ficar carregando coisas que não precisa.

Peguei um ticket de metro para as áreas 1 até 6 (sistema bem parecido ao da Alemanha), e fui até a grande estação de trens de Waterloo. Até então, tinha visto quase nada de Londres, fora trilhos e gente vestida quase que de qualquer jeito. Por sinal, gostei disso. Acho bom esse lance de cada um na sua, todos convivendo pacíficamente. Falando nisso, tinha dois tipos de pessoas: as que lêem revistas ou jornais, e as que escutam mp3. Para me enturmar, fiquei com o fone de ouvido na orelha, mesmo que desligado. Tinha um mundo novo de coisas para ouvir e aprender à minha frente, e não ia jogar isso fora.

Eram as 9:50, sai do metrô e segui as escadas até Waterloo Station. Esta estação é responsável pelo atendimento do sul/suleste do país, exatamente o rumo que pretendia seguir.  Fiz um par de perguntas de turista perdido nas cabines, e comprei meu ticket para Winchester.

O trem saiu exatamente às 10:05, e foi só então que comecei de fato a vislumbrar o país onde estava. E sorri. Estava na Inglaterra.

Daqui a pouco escrevo mais. Estou a caminho de Winchester.

5 comentários:

Marion disse...

Estou adorando acompanhar seus relatos por aqui. :)

Ansiosa pelos próximos posts!

Beijos

Renata disse...

Pelo que Gabriel falou, o pessoal de lá é meio tenso mesmo com os estrangeiros. Mas pelo menos deu tudo certo!

No último parágrafo só faltou falar "rolou uma lagriminha"... hehehe! :)

Beijos!

Tripulação da Aviação disse...

hahahahaha

gostei pra caramba!!!

Wally disse...

@Marion, você já viu todas as fotos, ouviu todos meus relatos, mas com certeza os posts tem outro sabor. Eu também estou ansioso para ver o que vai sair!

@Rê, ufa, ainda bem que deu certo... Depois eu parei pra pensar, e acho que a suspeita deles foi mais por viajar sozinho. Com certeza vai ser bem mais tranquilo quando for com a Marion!

@Tripulação, visitei seu blog (hoje um portal), mas sem saber quem escreveu fica dificil até comentar.. obrigado pela visita!

Renata disse...

Wally, Gabriel também disse isso, se estivesse comigo as pessoas não ligariam tanto. Quem sabe na próxima né?
Bjs!