Saldo Devedor, Folga e Tecnologia

Cada um com suas correrias, alguns com o dia das mães, outros com trabalho (como no meu caso), o fato é que cheguei neste fim de semana esgotado.
Vou ficar devendo um post. Tirei o fim de semana para descansar, afinal foi feito para isso...
Ainda assim, para não dizer que não postei neste finde, vai uma coisinha que faz tempo estou guardando:

Engraçado como algumas pessoas são avessas à tecnologia, mesmo nos dias de hoje. Eu sou tecnómago. Curto tecnologia. Respiro tecnologia. Mas com uma ressalva: somente concordo com a tecnologia que veio para ajudar. De nada adianta tentar usar um celular, um computador, um software ou mesmo um fogão se dá mais trabalho do que o que tinha antes. A evolução tecnológica deve ajudar ao homem no seu dia-a-dia, para tornar seu trabalho mais eficiente, e com isso poder utilizar seu tempo em coisas mais uteis. É ótimo apertar um botão, rodar um programa, iniciar algum software e deixar que tome conta, para dedicarmos o esforço ao que interessa. Precisamos desenvolver cada vez mais nosso lado criativo... Leiam, estudem, aprendam, e não tenham medo de errar. Assim se aprende muita coisa também!

Bom fim de semana!!

No próximo post: Entrando de cabeça no mundo de Malory...

Homem de Ferro


- Gentil anfitrião, se não vos aborrece e se o sabeis, dizei-me: quem é estes cavaleiro com armas azul e ouro que ora passou por aqui? Junto dele cavalgava uma donzela encantadora e adiante um anão corcunda.
Responde o anfitrião:
- É quem terá o gavião, pois nenhum cavaleiro ousará opor-se. Não, não haverá rotos nem rasgados. Ele o conseguiu dois anos seguidos, sem ter encontrado desafiante. Se também desta vez obtiver o pássaro, o terá ganho para sempre. Dele será o pássaro, doravante todo ano, sem contenda nem peleja.
Diz Eric vivamente:
- Esse cavaleiro, não gosto dele! Sabei que se eu tivesse armas lhe disputaria o gavião! Gentil anfitrião, rogo que me ajudeis a aparelhar-me de armas, velhas ou novas, feias ou belas, pouco importa.
O anfitrião responde:
- Tenho boas e belas armas que de bom grado vos emprestarei. Lá dentro está a loriga de malha tripla que foi escolhida entre quinhentas, e as perneiras brilhantes e leves. O elmo está polido, luzente, e o escudo tinindo de tão novo. Cavalo, espada e lança vos emprestarei também, podeis ter certeza!
- Agradeço-vos, caro anfitrião, mas não desejo melhor espada além da que trouxe, nem outro cavalo além do meu. Dele me valerei bem. Se emprestardes o restante, será bondade mui grande.

O texto acima é do conto de Eric e Enide, texto muito rico que me levou 1, 2, 3 posts para completar. Deu um certo trabalhinho localizar esse texto específico; queria um texto arturiano que menciona-se vários componentes de uma armadura medieval, e embora este não seja exatamente o que buscava, já dá pé suficiente para o assunto de hoje.

Cuecão de lata

Quando disse trabalhinho, na verdade foi um trabalhão de pesquisa. Passei um par de horas fuçando o "Le Morte d'Arthur" do Thomas Malory no original, no seu inglês agradabilíssimo dos idos anos 1400. Mais exatamente, o livro foi concluído durante o quinto ano do reinado de Edward IV, portanto entre 1469 e 1470. Este livro somente viu a luz após sua paginação feita por Caxton, mais ou menos em 1485. Ele separou todos os textos em dois volumes, com 10 capítulos cada um.
Toda essa busca foi procurando uma passagem onde mencionassem as diferentes peças que compõem uma armadura. Adivinhem o que aconteceu? Não achei.
Talvez a conclusão mais importante e inusitada da busca da santa passagem seja o fato de chegar na conclusão que Malory não era conhecedor de armas. Em todos os confrontos, quando algum cavaleiro está se aparelhando para a batalha ou simplesmente para justar, o texto diz que o cavaleiro vestiu seu "armour", ou armadura. No máximo, aparece a expressão "harness", cujo equivalente seria aparelhagem. Nenhuma menção aparece às peças que compõem uma armadura, salvando pelo obvio, como o "helm" (capacete), e o "hauberk", que não é outra coisa que a camisa de cota de malha, que protege contra o corte de uma espada ao não permitir a passagem do aço entre seus elos. Nos contos de Malory os hauberks eram de péssima qualidade, ou os espadachins habilidosos demais, já que sempre cedia à força do corte.
As armas não recebem nenhuma categorização; uma espada é sempre uma "sword", nunca aparece qualquer outra expressão como sinônimo ou tipo de espada. Sim, há muitos tipos de espada, categorizadas pelo seu gume, peso, tamanho, etc, etc.
Resumindo: não achei o que buscava.
Então bateu a tecla; estava buscando no lugar errado. Precisava revisar outros livros, outros textos mais antigos, onde de fato as pessoas tinham a necessidade de usar armadura. Essa experiência de vida com certeza seria refletida nos textos. Portanto, mais uma vez o Chrétien salvou a lavoura, com o texto do Eric e Enide que abre este post.
Se não me engano, o texto original antigo do "Le Morte d'Arthur" que não pertence ao Malory mas cuja autoria é anônima, tem várias passagens onde Lancelot veste pacientemente cada peça da sua armadura, mas não achei até agora, e pela densidade do texto fica difícil caçar no livro sem um CTRL+F que ajude. Com certeza vou achar quando estiver procurando por outra coisa, como sempre acontece.

Tem tamanho M?

Já pensaram na dificuldade de vestir uma armadura? De se mexer dentro dela? Na sensação de claustrofobia, preso dentro de tanta lata? De até que ponto um cavaleiro estaria indefeso dentro dela? Por que então as pessoas usavam armadura?

A resposta é simples: pelo mesmo motivo que são usados tanques nos dias atuais. O cavaleiro em armadura era uma arma formidável, capaz de enfrentar vários soldados em pé, se deslocar rapidamente, interceptar, avistar, formar barreiras. Os cavaleiros, como falei faz uns 6 meses, eram a elite de qualquer exercito, capazes de desequilibrar uma batalha.

A imagem acima, tirada do site medieval lifestyle, mostra as peças que compõem uma armadura clássica de finais de 1500/começos de 1600 (séc. XVI/XVII respectivamente). O que não conta é o que precisava embaixo dela:
A primeira camada em contato com a pele era sempre uma camisa de tecido, que mantinha o corpo quente mesmo no nevado inverno da europa. Em cima, outra camisa, desta vez de couro, que amaciava o impacto dos golpes e protegia contra farpas que nenhuma outra peça de roupa poderia segurar. A seguir, a cota de malha, que com a passagem do tempo ganhou e perdeu mangas para comportar funções como a dos arqueiros, que precisavam dos braços livres de qualquer peso para mirar apropriadamente. Finalmente, aqueles que vestiam armaduras recebiam a ajuda dos valetes para afivelar cada peça no seu lugar. É bom não bater vontade de ir no banheiro depois disso tudo.

Ficaram curiosos? Querem experimentar?

Quem estiver passando uns dias em Ontario a trabalho ou passeio poderá passar pelo AEMMA, ou "Academy of European Medieval Martial Arts". Esta fundação existe com o único objetivo de manter vivas as tradições de batalha medieval, incluindo regras especificamente escritas para a luta "mano-a-mano". Sim, os caras quebram o pau mesmo. Por motivos de segurança, eles só permitem armaduras de fins do séc. XIV até começos do séc. XV, e até por defender um teor histórico. Se você for participar, esqueça de chegar com seu capacete pontudo do séc. XI, não vai rolar mesmo que sua armadura seja apropriada.

No site da AEMMA tem uma referência a um livro de 1954, chamado "A Book of Armour", de Patrick Nicolle. Eles tentaram conseguir os direitos para publicar, mas nada de achar a editora ou o autor do livro, ou mesmo quem tiver os direitos sobre ele. Por esse motivo, colocaram o texto na íntegra nomeando o autor para evitar problemas, e no mesmo intuito eu catei descaradamente do site deles para alegria geral dos meus leitores.

1320 - Nessa época entraram muitas placas metálicas. Nosso modelo à esquerda representa um cavaleiro do rei Edward II; reparem nas peças circulares nos cotovelos, para proteção extra. Em 1325 a armadura mudou bastante; o capacete pontudo ainda valia, mas entrou o babador de cota de malha, e as mangas do hauberk (a tal camisa de cota de malha) ficaram largas, para poder colocar as luvas, agora inteiramente de placas metálicas.






1345 - Eis um bom exemplo da armadura usada na batalha de Crecy (França / Inglaterra). O capacete tinha um visor móvel, com seu final estendido e curvo para proteger o pescoço. O destaque da armadura é que era montada em cima de roupa de couro, rebitada por cima ou por baixo do couro mas nunca rebitadas entre elas. Aliás, alguém reparou que estes capacetes defendiam também as bochechas?








1419 - Bem-vindos à armadura completa, o tal de full plate armour. Nela o saiote de couro da versão anterior foi substituído por uma peça articulada; o capacete protege agora o rosto inteiro, e o pescoço como uma peça única.










É, os tempos evoluem... não percam o filme do Iron Man, está demais! E fiquem até o final do final do final das letrinhas que passam no final. Tem cena extra!!

Roubando A Cena

O Cavaleiro, O Sangue, e Anões. Uma Retrospectiva.

E não é que terminei de ler "A Neve e O Sangue", de Christian de Montella? O segundo volume da saga fala do Perceval, como disse faz um par de posts. Mas, para minha surpresa, a história acaba virando mais uma vez a novela do Lancelot. E Guinevere mostra seu lado TPM, àla "me mires pero no me toques". No fim das contas, você esquece que o livro era do Perceval... coitado do galês. Merecia mais.

Visão do Graal no Castelo do Rei Pèlles


Montella apelou um pouco com alguns vieses (talvez inventados, talvez inspirados, não sei dizer ainda) para acrescentar conteúdo à lenda já conhecida. Ele acabou trazendo o Lancelot do primeiro livro para o núcleo da história, deixando de lado o Perceval logo após seu totalmente clássico e infaltável encontro com o Rei Pèlles, também conhecido como o Rei Pescador (não é de alegre, ele pesca mesmo, ou pelo menos ele tenta). Um desses vieses interessantes é Ellan ter virado a filha do rei Pèlles; é ela quem teve o filho de Lancelot, o Galahad. Neste livro, Galahad aparece apenas como uma criança perturbadoramente perfeita. Acho que ficou alguma coisa entre o Demian de Profecia, o moleque que quer usar o banheiro do Pedrinho da propaganda e as crianças iluminadas do "Total Eclipse of the Heart" da Bonnie Tyler. Cada um tire suas conclusões, ou leia o livro para entender.

O mais curioso do livro (fato este que me espanta ainda) é que o último capítulo é práticamente uma transcrição do encontro final entre Arthur e Mordred; isto não tem relação nenhuma (mesmo!) com o conto do Perceval. Até porque se Galahad é ainda uma criança, Perceval já encontrou o Pèlles, e Arthur foi de vez para Avalon (tipo, morreu, foi para o ceú, etc. etc.) fica uma pergunta... Como e quando vai surgir a busca do Graal? Sem Arthur, não tem távola redonda... Ou seja, como o Graal será revelado, e surgirá a busca? A coleção destes livros não se chama justamente "Graal"? Hein?

Estou curioso para ver os próximos dois livros, "A Nau do Leão" e "A Revanche das Sombras". Não faço a menor idéia do que esperar. Na verdade, até acho que sei o que esperar, pelo menos em uma coisa: o anão FDP da charrete vai voltar. Ele sempre volta.

Tirando Dentes

Como já devem saber pelo blog da Marion, nesta sexta-feira foi a vez do Sam tirar os dentinhos ruins da boca. Isso é importantíssimo para não causar doenças piores, como bactérias entrando no fluxo sangüíneo e afetar os órgãos. Quem tem bicho, tem que amar e cuidar.

A cirurgia do Sam juntou com tantas outras coisas que devem rolar neste fim de semana longo, visitas de amigos, uma semana bem puxada para Marion e para mim, e estou me dando o direito de descansar. Não quer dizer que não vai ter post, digo apenas que não sei quando vai sair, qual vai ser o assunto, como vai ficar estruturado... Vai depender da correria do feriadão :-)

Para não dizer que não postei, e para não deixar de ilustrar o fim de semana, vai uma imagem que me chegou pelo Stumble:


Achei muito engraçada, por ter vivenciado nos primeiros anos da minha vida um certo preconceito por ser canhoto. Todas minhas professoras ("maestras") de primeiro grau queriam porque queriam que escrevesse com a mão direita. Sou muito hábil com ambas as mãos, mas não me peçam para escrever com nenhuma delas. Precisei entrar no colégio técnico para aprender a escrever de verdade, e me comunicar através de uma escrita legível.

Pensando bem, ser canhoto podia ser muito interessante no período medieval. Se fosse justar, só o fato de trocar as armas de lado causaria um estrago enorme; um destro espera o ataque pela esquerda, onde carrega o escudo, mas na hora que inverto isso, seu esquema de defesa desmorona. Já no meu caso, a obrigação de viver em um mundo de destros me garantiu habilidade manual, que no período medieval com certeza teria refletido no manuseio de armas.
Quem sabe não me escreva em uma escola de Kempô, afinal para o samurai não faz diferença ser destro ou canhoto...

Bom feriado! E esperem por noticias!

O Eleito Pelo Público!


O conto de Tristão e Isolda foi um dos romances de maior influência no período medieval. Sua importância é tal que inspirou a lenda arturiana, na história de Lancelot e Guinevere. Ambas as histórias são muito parecidas, salvando nomes e lugares, mas a influência do “Tristan” é indiscutível.
Originamente, a lenda do Tristan não tinha relação nenhuma com o Rei Arthur, mas logo depois do Vulgato (Lancelot-Graal em 1235), Tristan foi promovido a membro da Távola Redonda, por colocar assim.
Existem duas vertentes principais na lenda do Tristan. A primeira compreende os romances de dois poetas franceses da segunda metade do século 12, Thomas e Béroul, onde suas fontes se remontam até os antigos romances Celtas. A segunda vertente corresponde à prosa Tristan (1240), que é nitidamente diferente aos trabalhos prévios de Thomas e Béroul. A prosa Tristan virou a referência oficial para a lenda medieval de Tristan e Isolde, servindo de base para Thomas Malory. Só lembrando, Malory é o autor do Le Mort d’Arthur (1469).

Um pouco de história

Como disse acima, a primeira vertente corresponde a dois autores, Thomas e Béroul. Ambos os trabalhos parecem se sustentar em una história anterior, quem sabe a história original de Tristão e Isolda, mas nada sobreviveu que possa demonstrar isto. Como tantos originais, estes também se perderam no tempo.
O romance de Béroul é considerado a versão “descortês” ou mesmo “vulgar”, já que é menos refinada, e em várias cenas a atitude e ações dos personagens podem considerar-se brutais. Talvez esta história seja mais próxima da original, pela sua índole e base na lenda oral.
Já o conto de Thomas é um romance cortês. O autor escreve muito sobre os pensamentos e sentimentos dos personagens; embora a linha seja a mesma do Béroul, algumas passagens são diferentes.
Nenhum destes romances sobreviveu por inteiro. Do romance de Béroul, existe apenas um único manuscrito, que carece do começo e o fim. Do romance de Thomas existem várias cópias em diversos estados de conservação, nenhum deles inteiro, e juntando as partes ainda faltam segmentos no meio da história.
Chrétien de Troyes (sim, o eterno Chrétien de sempre) escreveu sua própria versão de Tristão e Isolda, da qual infelizmente nenhuma cópia sobreviveu até os dias de hoje. Este exemplar provavelmente ganhou o nome de “Mark e Isolda a Loura”; as provas da existência deste trabalho são as numerosas referências a ele em contos posteriores, como Erec et Enide e Clìges. Não há dúvidas de que Chrétien conhecia profundamente a história original.
Existem outros trabalhos como o do alemão Eilhart von Oberge, que escreveu Tristrant und Isalde (1170), trabalho este que foi usado para complementar partes faltantes do Béroul. Embora não existam cópias do original, sobraram referências ao trabalho dele que datam do século 13.
Entre os autores que se basearam no trabalho de Thomas, podemos mencionar o alemão Gottfried von Strassburg (Tristan und Isold – 1210), a saga escandinava Tristams Saga og Isonde (Séc.13) e o inglês Sir Tristrem (séc.14).
Eis que surge uma dúvida. Qual história conto para meus leitores? A primeira vertente, considerada original, ou a posterior, a versão em prosa? É inegável o valor da história original, porém no momento que considero o interesse e foco do meu blog, faz mais sentido falar da versão em prosa, ou mesmo da versão de Malory inclusa no seu Le Mort d’Arthur durante vários capítulos. Para não ficar no impasse, o melhor que posso fazer é um resumo da história original, e quem sabe daqui a alguns posts trazer o assunto à tona novamente para falar da versão arturiana.

Tristam et Yseult

Tristan, o filho da falecida irmã do Rei Mark de Cornwall, vai para Irlanda para receber os cuidados dos seus ferimentos, especificamente de uma ferida que não cicatriza. Esta ferida foi aberta com uma espada cujo gume foi embebido em veneno, e somente o talento de Isolda a Justa (filha de Isolda a Rainha) poderia curar estes ferimentos.
Quando Tristan volta para Cornwall, conta ao Rei Mark sobre a beleza de Isolda a Justa. O Rei Mark se encanta com o relato, se apaixona dela, e pede a Tristan que volte à Irlanda para pedir a mão dela no seu nome.
Tristan aceita esta missão, e a noticia é bem recebida no reino da Irlanda. Isolda a Justa aceita se casar com o Rei Mark, e Tristan e Isolda partem para Cornwall.
Isolda a Justa carregava com ela uma poção de amor, que usaria para garantir a fidelidade do Rei Mark. Inadvertidamente e por engano, Tristan e Isolda beberam a poção durante a viagem.
O resto da história relata como a culpa e o remorso perseguem Tristan e Isolda pela ambigüidade dos seus sentimentos; o conflito entre o que sentem com a fidelidade jurada a ao Rei Mark como legitimo e amante esposo dela, e como tutor e rei para Tristan, somada à desconfiança crescente do rei sobre os sentimentos destes dois.
Ambos foram exilados. Tristan conheceu outra Isolda, a da Mão Branca, com a qual quase desposou.
Eventualmente, Tristan recebe uma nova ferida mortal, que somente Isolda a Justa poderia sarar, mas ela está exilada na Irlanda. Ele pede socorro a ela, deixando como sinal entre eles que se ela concordasse em cuidar dos ferimentos dele, o navio do mensageiro enviado por ela usaria velas brancas. Se não concordasse, o navio teria velas pretas.
Isolda a Justa se comove, envia seu mensageiro em um navio com velas brancas, mas quando o navio chega a Cornwall, Isolda a da Mão Branca, roída de ciumes, manda dizer ao Tristan que as velas eram pretas. Ele finalmente morre desconsolado; e Isolda a Justa se suicida ao saber da morte de Tristan.
Assim termina o conto de 1150, que mais tarde inspiraria a prosa, que posteriormente daria lugar a sua versão arturiana no texto de Malory... que vai ficar para outro post.

Outros Meios, Outras Mídias

O conto de Tristão e Isolda teve suas idas e voltas, sem nunca sumir do imaginário popular; isso talvez explique seu sucesso de público no meu humilde poll.
Richard Wagner, o famoso compositor de música clássica, deu o nome de Tristão e Isolda a um dos seus mais conhecidos trabalhos; uma ópera em 3 atos baseada principalmente no texto do Gottfried von Strassburg. Este trabalho foi escrito entre 1857 e 1859, com sua premiere em 1865 em Munique.
A última citação da qual tenho notícia e o filme Tristan + Isolde, de 2006. James Franco no papel de Tristan e Sophia Myles como Isolde nos presenteiam com um belo e entrosado casal, como a história faz questão de pedir. Grande destaque para Rufus Sewell no papel do rei Mark.
Vi este filme no cinema, e como vi gente sair chorando da sala... quem não viu, pode colocar na lista, vale a pena.

Então, isso é o que tenho para contar dessa vez sobre Tristão e Isolda... gostaram? Odiaram? Comentem!

Até a semana que vem!

And The Winner Goes To...

Primeira enquete do blog, e foi todo um sucesso. Com 62.5% dos votos, o escolhido por vocês foi Tristão e Isolda!


No fim de semana publico o post sobre a história deles. Alguém se habilita para dizer por que motivo votou no Darth Vader?

Graal: A Neve e o Sangue

Para quem lembra deste post, decidi criar vergonha na cara e começar a diminuir o backlog. Fica difícil com a rajada de lançamentos que não param de aparecer, mas em algum momento tinha que começar com a leitura.

Lembrando que minha leitura do primeiro livro de Christian de Montella foi bem rápida, decidi ler o segundo livro da coleção do Graal. Desta vez não li tão rápido quanto o primeiro apenas por questões de agenda; foi uma semana muito puxada em vários aspectos, especialmente no profissional. Suponho que entre hoje e amanhã devo terminá-lo, e começar com o ganhador da enquete lançada na semana passada. Para quem não votou, é melhor correr, já que termina hoje!

Sobre o Livro

Segunda instância da história do Graal, segue exatamente o mesmo formato já comentado no primeiro livro: capítulos curtos, tipografia grande, e 271 páginas que contam histórias conhecidas de um jeito um pouco diferente.
Este volume conta a história de Perceval, começando na sua infância. Um breve prólogo serve de introdução aos fatos que conectam a história entre o primeiro e o segundo volume, onde aparece a figura sinistra de Mordred, filho incestuoso de Arthur e Morgana.
A habilidade de Christian de Montella como autor não é criar ou envolver tanto quanto um Bernard Cornwell, mas o mérito dele consiste em tecer o nexo entre lendas bem conhecidas, dando a sensação de um nexo contínuo, uma linha de tempo consistente entre os diversos fatos. O conto possui elementos que sem dúvida são criação dele, como por exemplo as características dos diferentes feitiços de Merlin, Nimue e Morgana. É também mérito dele distorcer certos fatos das versões mais tradicionais como a de Chrétien e a de Malory para justificar fatos ou condutas dos personagens em determinadas situações. Me desculpem por ser tão vago nas descrições, mas não quero estragar a leitura de ninguém, conhecendo as lendas ou não...
Como disse acima, este livro é sobre Perceval, no mesmo tom que o primeiro livro falou sobre Lancelot com base na história do Cavaleiro da Charrete. Perceval é um dos poucos cavaleiros que teve sucesso na procura do Graal; sua história é muito parecida a do Galahad, onde em alguns pontos os textos confundem um com o outro.
O Perceval de Montella não é muito mais do que um garoto rústico que vive em um bosque (a tal da Floresta Encantada), até encontrar com cavaleiros e decidir que quer ser como eles, onde parte em uma busca pessoal até se sagrar cavaleiro. O caráter rústico (bah, tosco) do Perceval é muito bem descrito neste livro; em alguns momentos bate um sentimento de pena, vemos nele um coitadinho, inocentão demais, todo isso culpa de uma mãe superprotetora, mas não vamos fazer uma análise psicológica, né? Não é minha praia. Meu mundo é nos castelos (embora Camelot ficava beirando o mar...)

Recomendo Sim

O que li até agora foi muito gratificante. O texto flui naturalmente, os personagens são bem ricos e humanizados, o que sempre foi a maior marca da lenda arturiana. Um mundo de fantasia com personagens como a gente.
Claro que é interessante ler o primeiro volume antes deste, mas quem pegar fora da ordem não vai ficar sem saber como as coisas aconteceram. O prólogo serve bem ao seu propósito, e pouquíssimas por não dizer nenhuma referência acontecem aos fatos do primeiro volume. O que realmente fará diferença entre quem lê o segundo volume antes do primeiro é uma percepção não tão rica dos personagens quanto a que tem quem lê os volumes na ordem correta.
Para quem conhece a história do Perceval, ainda assim é uma releitura interessante, com novos elementos e até um certo ângulo diferente de visão. Façam bom proveito, e quem tiver "tela" pode fazer como fiz, comprar logo os quatro volumes e estocar antes que fique difícil achá-los. Pelo que li até agora acho um bom investimento :-)

Até a semana que vem, e vamos ver o que sai do poll!!!